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Israel quer deportar palestino para o Brasil

Abu Hafez nasceu no País, mas migrou aos 2 anos; preso há 20 meses, ele alega não falar português, não ter passaporte e não conhecer brasileiros

O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2018 | 07h00

JERUSALÉM - Ele não fala português, diz não conhecer ninguém no Brasil e nem ter um passaporte válido do País, mas pode ser deportado para cá por uma decisão de Israel.

Maen Abu Hafez, de 24 anos, morava no campo de refugiados de Jenin desde que tinha quase 3 anos. Ele está há 20 meses em uma prisão israelense com outros imigrantes ilegais depois de ser detido em um posto de fronteira entre as cidades de Tul Karm e Jenin, na Cisjordânia.

Segundo o jornal Haaretz, Abu Hafez foi enviado para este centro de detenção depois que as autoridades israelenses constataram que o único documento que ele tinha era uma carta da Autoridade Palestina afirmando que há um pedido de reunificação familiar aberto em seu nome. Desde então, um tribunal que monitora a situação de pessoas detidas em Israel sem documentos renova sua prisão mensalmente.

Recentemente, a organização de defesa de direitos humanos Hamoked - Centro para a Defesa de Indivíduos assumiu o caso de Abu Hafez já que a família do rapaz não podia mais pagar por um advogado. Na semana passada, a organização fez um apelo contra sua detenção.

Abu Hafez nasceu no Brasil, mas se mudou para a Cisjordânia em 1997, quando tinha 2 anos e 10 meses, com seu pai palestino, sua mãe uruguaia e outros três irmãos. A mãe e as quatro crianças entraram com vistos de turista, válidos por três meses e, pouco depois, se mudaram para o campo de Jenin.

Alguns meses depois, o palestino abandonou a uruguaia e os filhos. Ele teria voltado para o Brasil, mas seu paradeiro é incerto já que a família não manteve contato. Ele não chegou a registrar os filhos no banco de dados de crianças palestinas nem fez um pedido de reunificação familiar para a mulher.

A uruguaia e os filhos vivem desde então na Cisjordânia sem documentos legais de residência o que os impede de solicitar uma autorização a Israel para visitar Abu Hafez na prisão.

Maen Abu Hafez e seus irmãos foram criados pela mãe com a ajuda de um tio no campo de refugiados. Ele estudou em escolas mantidas por uma agência da ONU e pela Autoridade Palestina. Antes de ser preso, trabalhava em uma oficina de reparo de automóveis.

No momento da sua detenção, em fevereiro de 2017, os israelenses tinham suspeitas relacionadas à segurança contra Abu Hafez. Ao Haaretz, Nadia Daqqa, advogada da Hamoked que defende o defende, disse que se as dúvidas das autoridades contra o palestino tivessem sido confirmadas, ou amparadas por evidências, ele teria sido indiciado e julgado sem problema. Ela garante, no entanto, que nada disso ocorreu.

Em julho de 2017, um tribunal rejeitou a apelação inicial de Abu Hafez contra sua ordem de deportação ao Brasil e seu pedido para voltar para territórios administrados pelos palestinos. A juíza Michal Agmon-Gonen afirmou que Abu Hafez estava ilegalmente na Cisjordânia e que o tribunal não tem autoridade para ordenar a deportação de uma pessoa para um Estado no qual ela não é uma cidadã do ponto de vista legal.

Na mais recente audiência do caso, na quarta-feira, o representante do Ministério do Interior israelense Yaron Brinder reiterou que Abu Hafez deveria retornar ao Brasil já que Israel não pode enviá-lo a um território ou a um país em que ele não tenha autorização de residência.

“O Estado de Israel só é responsável pelas pessoas que residem nele e, por isso, decidiu inequivocamente, com base na ordem de deportação (contra Abu Hafez), que ele deve retornar ao Brasil”, afirmou Brinder.

Segundo o jornal israelense, no entanto, o governo brasileiro afirmou que não receberá o palestino contra sua vontade.

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