Israel quer diálogo centrado na ameaça do Irã

Bibi tentará tirar foco da questão palestina para colocá-lo sobre o programa nuclear iraniano

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Ao cruzar as portas da Casa Branca, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, se desdobrará para colocar a ameaça iraniana no topo da agenda de seu encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama. De um lado, Bibi tenta levar o foco dos palestinos para o Irã. De outro, há um pânico real sobre um regime que fala abertamente em "riscar Israel do mapa" e avança em um programa nuclear. Mas as chances de sucesso de Bibi são remotas. Washington parece estar certo de que chegou a hora de os EUA - e não Israel - ditarem a agenda no Oriente Médio.Não é a reeleição do presidente radical Mahmoud Ahmadinejad que realmente tira o sono dos israelenses, mas a possibilidade de um candidato moderado, como Mehdi Karubi ou Mir Hussein Mousavi, vencer a votação de junho, disse ao Estado um alto funcionário do governo de Israel que pediu anonimato. "Moderados também querem armas nucleares, mas não têm a ?roupagem? caricatural de Ahmadinejad", disse. "Com eles, a comunidade internacional terá uma falsa sensação de alívio."A preocupação é tamanha em Tel-Aviv que no próximo mês será realizado o primeiro exercício nacional contra ataques nucleares, envolvendo de escolas primárias a bases aéreas. Para Israel, Teerã adota - com sucesso - uma "tática Sherazade", narrando histórias sem fim na mesa de negociações e fazendo o tempo passar. "Um Irã nuclear é tido praticamente como um fato consumado por alguns israelenses. E isso inicia uma nova era no Oriente Médio", disse o funcionário.Simultaneamente, a cartada iraniana será o refúgio de Bibi quando for pressionado a negociar com os palestinos. Direitista, seu governo vende a ideia de que não adianta fechar um acordo se Teerã continuar patrocinando o Hamas. Assim, a palavra "Estado" foi substituída por "progresso econômico" como suposto plano para paz.Da última vez que participou das negociações como primeiro-ministro (1996-1999), Bibi enfureceu funcionários do governo Bill Clinton - muitos dos quais estão de volta à Casa Branca - com seu tom evasivo. O próprio Clinton teria bradado: "Esse filho da p... não quer um acordo." O assessor Dennis Ross, hoje enviado de Obama para o Irã, disse que parecia que era Bibi o representante da superpotência.O membro do governo israelense ouvido pelo Estado relatou que a pressão de Washington começou desde a posse de Obama. A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, o enviado ao Oriente Médio, George Mitchell, e outros funcionários mostraram descontentamento com o novo governo. "(O chanceler Avigdor) Lieberman não disse absolutamente nada a Mitchell no encontro reservado entre os dois", atitude que incomoda Washington. Organizações judaicas progressistas, ligadas ao Partido Democrata, também fazem pressão, disse."Se há uma lição sobre o primeiro governo Bibi é que ele foi marcado por um zigue-zague entre posições. Ao final, perdeu apoio dos EUA e de sua base eleitoral", explicou Gershom Gorenberg, autor de The Accidental Empire: Israel and the Birth of the Settlements (O império acidental: Israel e o nascimento dos assentamentos). "Mas há outra lição: a única coisa previsível aqui é a imprevisibilidade", completou. "Foi uma surpresa quando Rabin assinou Oslo ou quando (o premiê Ariel) Sharon desmantelou todos os assentamentos de Gaza."Otimistas veem sinais de pragmatismo no novo governo de Bibi. Ele quis visitar um país árabe, o Egito, antes de ir aos EUA. O ex-premiê britânico Tony Blair disse ter se surpreendido com o discurso moderado de Bibi em um encontro entre os dois. E quando Obama, ainda candidato, esteve com Netanyahu, em julho, ele foi direto ao ponto com o israelense: "Acham que vim da esquerda e você, da direita. Mas nós somos muito mais pragmáticos do que pensam."ALIANÇA HISTÓRICA1948RECONHECIMENTO - EUA apoiam plano da ONU para criar dois Estados na chamada ?Palestina? e, um ano depois, são um dos primeiros a reconhecer Israel1956GUERRA DE SUEZ - Para tentar reduzir a influência europeia no Oriente Médio, Washington atua contra coalizão de Israel, França e Grã-Bretanha, conseguindo conter a invasão ao Egito de Gamal Abdel Nasser1967GUERRA DOS SEIS DIAS - Israel conquista Cisjordânia, Faixa de Gaza, Sinai e Colinas do Golan. EUA substituem França como principal potência aliada ao Estado judeu1973GUERRA DO YOM KIPPUR - Em meio à Guerra Fria, EUA sob governo Nixon ficam do lado de Israel; União Soviética apoia árabes1978MEDIAÇÃO - Americanos articulam paz entre Egito e Israel. 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