Israel renova pressão por linha vermelha e sanções ao Irã

Para alguns analistas, discurso de Binyamin Netanyahu na Assembleia Geral da ONU aponta que israelenses ainda querem conter iranianos pela via diplomática.

BBC Brasil, BBC

27 de setembro de 2012 | 22h39

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, usou seu discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta quinta-feira, para voltar a pressionar por uma "linha vermelha" de limite ao programa nuclear iraniano e por mais sanções ao país persa.

Em uma fala vista como "teatral", pouco convencional e que virou viral nas redes sociais, Netahyahu chegou a apresentar à plateia o desenho de uma bomba no qual riscou uma linha vermelha, indicando, segundo ele, o estágio do qual o Irã estaria se aproximando.

O desenho visava mostrar que, em algum ponto do ano que vem, o Irã supostamente terá urânio enriquecido suficiente para fabricar uma bomba atômica e que a única forma de impedir isso é impondo um limite ao programa iraniano.

"Acho que, diante de uma linha vermelha clara, o Irã recuará. E isso dará mais tempo para sanções e para a diplomacia convencer o país a desmontar seu programa de armas nucleares", afirmou o premiê israelense. "Linhas vermelhas não levam à guerra, linhas vermelhas evitam a guerra."

Oficialmente, o Irã nega que seu programa nuclear busque a construção da bomba e afirma que este tem apenas fins energéticos e medicinais. Mas Israel sente-se ameaçado pelo programa iraniano e afirma que o país persa está perto da bomba. Nos últimos meses, especulou-se que Israel estaria planejando atacar instalações nucleares iranianas.

Para alguns analistas, o fato de Israel ter pressionado pela imposição de uma "linha vermelha" até o ano que vem demonstra que o país estaria disposto a alvejar o Irã após essa data; outros, porém, destacaram que Netanyahu frisou "sanções e diplomacia" em sua fala.

"Para os que se alarmavam com a perspectiva de um potencial ataque israelense contra o Irã, houve algum alento na fala de Netanyahu", opinou o analista diplomático da BBC Jonathan Marcus. "Ele parece acreditar que ainda há tempo para conter o Irã com sanções e pela via diplomática."

Persuasão

O discurso de Netanyahu na ONU ocorreu no mesmo dia em que o jornal israelense Haaretz divulgou um relatório interno da Chancelaria de Israel pedindo por uma nova rodada de sanções contra o Irã.

Segundo o relatório, as restrições econômicas internacionais já em vigor têm tido um profundo efeito na economia do país persa e podem até desestabilizar o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad. No entanto, seriam insuficientes para persuadir Teerã a suspender suas atividades nucleares.

Na avaliação do jornal The New York Times, o relatório confirma que Israel admite haver tempo e chance de conter as ambições nucleares do Irã por outros meios que não o militar.

Ao mesmo tempo, o correspondente da BBC James Robbins explica que o objetivo do discurso de Netanyahu nesta quinta era convencer o presidente Barack Obama de que os EUA devem estar preparados para atacar as usinas nucleares iranianas até o prazo máximo estabelecido pelo premiê israelense, ou mesmo antes disso. O argumento é de que seria muito arriscado deixar essa decisão para quando o Irã estiver mais perto da bomba.

No entanto, o governo americano tem rejeitado até o momento o estabelecimento de "linhas vermelhas". E, se estabelecesse esse limite, possivelmente não seguiria o calendário de Netanyahu.

O premiê israelense, ainda assim, fez referências positivas a Obama em seu discurso, agradecendo o fato de o presidente americano ter dito, na véspera, em seu próprio discurso perante a ONU, que fará "tudo em seu poder" para impedir que o Irã obtenha a bomba.

"Talvez seja a percepção de que a antipatia entre os dois líderes (Netanyahu e Obama) estava tomando proporções danosas", opina Jonathan Marcus. "E um indicativo de que, ainda que prefira o candidato republicano à Presidência dos EUA, Mitt Romney, Netanyahu está se preparando para uma possível reeleição de Obama."

Palestinos

Netanuahy pouco falou sobre o conflito israelense-palestino em seu discurso - evidência de que o estacionado diálogo bilateral de paz segue ofuscado pela questão iraniana e pelos demais conflitos derivados da Primavera Árabe.

Antes de Netanyahu, porém, falou perante a ONU o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Ele criticou o que chamou de "política de privação e limpeza étnica" promovida por Israel contra os palestinos. Disse falar "em nome de um povo raivoso" e que anseia por mudanças.

Abbas defendeu a solução de dois Estados, afirmando que que "dois povos devem coexistir, cada qual com seu Estado, na Terra Santa". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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