Israel suspende entrega de restos mortais de militantes à Autoridade Palestina

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse que corpos poderiam ser moeda de troca pelo soldado israelense Gilad Shalit.

Guila Flint, BBC

05 de julho de 2011 | 10h21

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, anunciou nesta terça-feira a suspensão da transferência dos restos mortais de 84 militantes, que havia sido acordada com a Autoridade Palestina, argumentando que os corpos poderiam ser moeda de troca pelo soldado israelense Gilad Shalit.

De acordo com Barak, o Ministério da Defesa irá "reavaliar se a entrega dos corpos pode prejudicar a negociação sobre Gilad Shalit", sequestrado por militantes palestinos na Faixa de Gaza há cinco anos.

Barak também disse que "daqui a pouco não haverá o que entregar", em referência ao estado dos corpos, que se encontram enterrados há vários anos.

"Devemos verificar quem são os que entregaremos e talvez não transferir parte deles", acrescentou o ministro.

Negociação

A transferência dos restos mortais, que estava programada para os próximos dias, tinha sido resultado de uma longa negociação entre oficiais israelenses e a Autoridade Palestina.

O ministro palestino Hussein El Sheikh, responsável por assuntos civis, disse que ficou surpreso com a decisão de Barak e afirmou que toda a negociação sobre a entrega dos corpos fora realizada com o ministério da Defesa de Israel, que é dirigido pelo próprio Barak.

El Sheikh também afirmou ter recebido do ministério israelense uma lista detalhada dos corpos que seriam transferidos, incluindo os nomes dos mortos, datas de nascimento e locais onde estão enterrados.

A lista, que foi publicada tanto pela imprensa israelense como pela palestina, inclui dezenas de autores de atentados suicidas que mataram, no total, centenas de civis israelenses, principalmente entre os anos 2000 e 2004.

As informações de que Israel iria entregar os restos mortais geraram protestos por parte de parentes de vítimas dos atentados.

"Penso que Barak cedeu à pressão do público israelense", afirmou o ministro palestino.

"Mas esta não é a primeira vez que o governo israelense não cumpre acordos", completou El Sheikh.

'Boa vontade'

Amos Gilad, chefe do departamento de Segurança e Diplomacia do ministério da Defesa de Israel, havia confirmado o acordo de entrega dos restos mortais à Autoridade Palestina argumentando que tratava-se de um "gesto de boa vontade" de Israel para com o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

No entanto, Yacov Amidror, chefe do setor de Segurança Nacional no gabinete do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, afirmou que a troca havia sido aprovada "em princípio", mas não "de fato".

"Como israelense e como judeu me sinto desconfortável todas as vezes que Israel negocia com corpos, mas infelizmente vivemos em uma região em que restos mortais são moeda de troca", disse Amidror à radio estatal Kol Israel.

Fontes do Ministério da Defesa disseram ao site Ynet que "ocorreu um mal entendido constrangedor" e que a maneira como a decisão foi tomada deverá ser examinada.

O ministro palestino El Sheikh insiste que "o nome de Gilad Shalit não foi mencionado em nenhum momento das negociações sobre a transferência dos corpos".

El Sheikh também afirmou que a Autoridade Palestina não tem controle sobre o destino de Shalit, que se encontra em um cativeiro do Hamas, na Faixa de Gaza.

Noam Shalit, pai do soldado capturado, disse nesta terça-feira que a discussão sobre a entrega dos restos mortais "não acrescenta respeitabilidade para Israel" e reiterou sua exigência de que governo "pague o preço" que o Hamas está exigindo e liberte seu filho.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.