Israel tenta aderir à coalizão contra jihadistas

Apesar de o Estado Islâmico não ameaçar o país, Netanyahu quer posicionar seu governo na vanguarda e lucrar com isso

AMOS, HAREL, FOREING POLICY, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h04

No dia 10, pouco antes que as três redes de TV de Israel começassem a transmitir o noticiário da noite, o premiê Binyamin Netanyahu convocou uma reunião de urgência sobre segurança. O objetivo da reunião, segundo o gabinete do premiê, era preparar o país para o risco de o Estado Islâmico (EI) se aproximar mais da fronteira israelense.

Na verdade, como grande parte da comunidade da inteligência de Israel destacou, não há nenhum indício de que algo do gênero esteja acontecendo. Os combatentes da organização jihadista não foram avistados perto da fronteira de Israel com a Síria, e o apoio dos palestinos ao EI é considerado bastante escasso. O anúncio teve como objetivo provar que Israel faz parte de uma coalizão mais ampla liderada pelos Estados Unidos contra o terrorismo islâmico, e desviar a atenção dos problemas econômicos voltando-a para as ameaças à segurança - provavelmente o truque mais velho do manual político israelense.

Nos 50 dias do recente conflito militar entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, a TV israelense apresentou uma cobertura total de quase todos os foguetes lançados, de toda interceptação de foguetes pelo sistema antimísseis Domo de Ferro e da morte de cada soldado em Gaza.

À medida que a guerra perdia intensidade, houve a impressão de que o EI entrava diretamente no vácuo de notícias - o vídeo da execução do jornalista americano James Foley foi publicado dois dias antes do último cessar-fogo em Gaza. Desde então, praticamente não houve um dia em que não fosse dada uma cobertura abrangente do grupo jihadista na mídia israelense.

A reação da mídia de Israel às imagens de decapitações, humilhação de prisioneiros e discursos assustadores de terroristas beira a obsessão pelos horrores. Ela as interpreta pela experiência de Israel com o extremismo islâmico.

Evidentemente, não deveria haver nenhum motivo para subestimar as ameaças em potencial do EI na região como um todo. Mas o perigo imediato para Israel não parece significativo. A presença da maior parte da organização na Síria concentra-se atualmente no nordeste do país, a área mais distante da fronteira israelense. Outros grupos jihadistas representam uma ameaça mais próxima: o avanço do EI empurrou outros grupos rebeldes, como a afiliada da Al-Qaeda, a Frente al-Nusra, para a fronteira israelense. Hoje, o bicho-papão do momento é o Estado Islâmico. As agências de segurança de Israel agora estão preocupadas com algumas dezenas de cidadãos árabes-israelenses que podem ter viajado para a Síria para ajudar os rebeldes. Resta saber se mais que dois deles ingressaram realmente no EI.

Apesar do crescente temor, não surpreenderá que o governo Netanyahu não tenha tomado nenhuma medida imediata contra o EI. O governo só anunciou que o grupo será considerado ilegal em Israel e nos territórios palestinos e decidiu manter o foco na coleta de informações sobre suas atividades na Síria e no Líbano.

Mas ainda que o EI não apresente uma ameaça iminente a Israel, Netanyahu tem-se mostrado extremamente ansioso por ajudar o mundo árabe na luta contra o grupo. Na semana passada, o premiê confirmou notícias segundo as quais Israel está fornecendo informações à nova coalizão internacional contra o EI. Durante dezenas de anos, Israel se preocupou em obter informações fidedignas sobre os acontecimentos na Síria, considerada seu inimigo mais ferrenho.

Desse modo, o presidente Barack Obama poderá enfrentar um problema semelhante àquele com que se defrontou George H. Bush antes da Guerra do Golfo de 1991: a participação de Israel ameaça afastar membros cruciais da coalizão, como os sauditas (e até mesmo Irã). Por esta razão, os EUA talvez procurem manter a participação de Israel a mais discreta possível.

Os benefícios que Netanyahu ganha garantindo um lugar na nova coalizão de Obama são igualmente claros: ele procura posicionar Israel na vanguarda da luta do Ocidente contra o terrorismo e não como uma relíquia arcaica da ocupação colonialista, como Israel é considerado às vezes nos círculos europeus.

O premiê costuma enfatizar as semelhanças entre o EI e o Hamas, descrevendo ambas as organizações como parte da mesma sequência de movimentos extremistas islâmicos. O Hamas contribuiu para favorecê-lo espalhando o pânico e executando em público - com um tiro na cabeça e não com decapitações - cerca de 20 habitantes de Gaza que acusou de serem colaboradores de Israel. As imagens de Gaza e da Síria assemelhavam-se de modo impressionante; não seria possível distinguir um algoz encapuzado do outro.

Ao mesmo tempo, Netanyahu considera útil encorajar um debate político sobre as possíveis ameaças na região. O premiê quer "mais bilhões" de shekels para a defesa. Se as ameaças à segurança forem entendidas como uma preocupação fundamental de Israel, os israelenses provavelmente considerarão Netanyahu o líder certo para conduzir a situação - e ele poderá continuar se concentrando na questão da defesa, obstruindo reivindicações de mudanças econômicas mais amplas.

Por isso, o Estado Islâmico é essencialmente a prova do argumento de Netanyahu de que o perigo espreita Israel de todos os lados. Afinal, quem teria imaginado que uma organização tão grande e tão brutal surgiria não se sabe de onde em um espaço de tempo tão escasso? Netanyahu está convencido de que isso poderá acontecer de novo - e, um pouco como o caso da Inquisição espanhola de Monty Python, ninguém espera o Estado Islâmico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESPECIALISTA EM QUESTÕES MILITARES

Mais conteúdo sobre:
Visão GlobalEstado Islâmico

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.