Israel testa sistema antimíssil com apoio dos EUA

Em meio à expectativa de um ataque americano à Síria, exercício militar israelense no Mediterrâneo eleva tensão no Oriente Médio

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2013 | 02h07

As Forças Armadas israelenses, com apoio dos EUA, realizaram ontem um teste com seu sistema de defesa antimísseis no Mar Mediterrâneo. O exercício coincide com um clima de incerteza em Israel, deflagrado pela decisão do presidente Barack Obama de consultar o Congresso antes de um ataque à Síria. O teste despertou preocupações na Rússia, que mantém uma base naval na região, no porto sírio de Tartus.

A primeira notícia da operação foi dada pelas agências russas. Um sistema de radares no sul da Rússia detectou pela manhã o disparo de "dois objetos balísticos" do centro para o leste do Mediterrâneo. O ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, avisou o presidente Vladimir Putin, segundo um funcionário citado pelas agências.

Mais tarde, Israel e EUA reconheceram que haviam realizado o exercício com o sistema antimísseis Sparrow. O Ministério da Defesa israelense informou que tinha executado, em conjunto com o Pentágono, um "teste bem-sucedido" no Mediterrâneo e numa base aérea na região central de Israel.

Aparentemente, um míssil disparado por um avião israelense foi interceptado pela bateria de defesa. Funcionários do Pentágono informaram à imprensa americana que os cinco destróieres estacionados na região não dispararam mísseis. George Little, porta-voz do Pentágono, disse que os EUA "forneceram assistência técnica e apoio".

"Os EUA e Israel cooperam em vários projetos de longo prazo de desenvolvimento de defesa de mísseis balísticos para enfrentar desafios comuns na região", ponderou Little. "Esse teste não teve nada a ver com a consideração de ação militar por parte dos EUA para responder ao ataque da Síria com armas químicas."

Numa reunião tensa do gabinete israelense, no domingo, dia seguinte ao anúncio de Obama de que consultaria o Congresso sobre um eventual ataque à Síria, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e membros de seu gabinete afirmaram que a decisão do presidente americano era mais uma prova de que Israel tem de estar preparado para "defender-se sozinho".

Preocupações. Pesquisa do Instituto Democracia, de Israel, mostra que 46% dos judeus e 40% dos árabes israelenses acreditam que a Síria atacará o país no caso de um bombardeio americano. Segundo analistas, no entanto, a atitude de Obama preocupa o governo israelense não tanto em razão da Síria, mas por um sinal de falta de determinação de agir que poderia ser enviado ao Irã, o inimigo que efetivamente preocupa Israel.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, advertiu ontem que uma ação dos EUA sem o aval do Conselho de Segurança seria ilegal, além de dificultar uma saída negociada para o conflito sírio.

"O uso da força é legal apenas quando no exercício da autodefesa ou quando o Conselho de Segurança aprova tal ação", disse Ban, em entrevista coletiva, na sede da ONU, em Nova York. "Precisamos pôr fim às atrocidades que o povo sírio continua a sofrer", disse ele, mas também "considerar o impacto de qualquer medida punitiva sobre esforços para prevenir mais derramamento de sangue e facilitar uma resolução política do conflito."

Ban pareceu estar reagindo a um pedido feito pelo governo sírio na segunda-feira, para que o secretário-geral "cumpra com suas responsabilidades de evitar uma agressão contra a Síria e impulsionar uma solução política para a crise".

O secretário-geral informou também que a conclusão da investigação da equipe de inspetores da ONU sobre o uso das armas químicas na Síria ainda deve demorar, porque eles ainda terão de voltar ao país mais uma vez e as amostras de solo e de tecido humano, coletadas na semana passada, só chegam hoje a Haia, na Holanda, onde a equipe trabalha.

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