Israel transforma QG de Arafat em prisão

O líder palestino, Yasser Arafat, isolado no mais sufocante cerco israelense já feito contra ele, pediu hoje ajuda da comunidade internacional depois de soldados do Exército judeu terem destruído edifícios no interior do complexo onde se localiza seu quartel-general em Ramallah, na Cisjordânia, escavando uma profunda trincheira e circundado o local com arame farpado.Mais tarde, buldôzeres israelenses demoliram uma passagem entre dois setores do gabinete, fazendo com que Arafat, alguns de seus assessores e cerca de 20 homens procurados por Israel ficassem isolados numa área restrita e separados de seus guardas de segurança, transformando o local praticamente numa prisão, denunciou Nabil Abu Rdeneh, um conselheiro do líder palestino. Cerca de 25 guardas de segurança renderam-se aos soldados israelenses, levantando suas camisas para mostrar que não carregavam explosivos.A Casa Branca e a União Européia pediram a Israel que mostre contenção e ressaltaram que uma represália tão dura por um atentado assumido por um grupo islâmico rival de Arafat poderia prejudicar os esforços para reformar a Autoridade Palestina e garantir uma trégua. Seis pessoas morreram ontem, num atentado contra um ônibus em Tel Aviv, incluindo o suicida.Aparentemente, o cerco a Arafat não será encerrado tão rapidamente. Israel anunciou que só recuará seus soldados quando 20 suspeitos escondidos no local se renderem, inclusive o chefe do serviço secreto palestino na Cisjordânia, Tawfik Tirawi. Assessores de Arafat comentaram que o líder palestino não entregaria nenhuma das pessoas ali presentes aos soldados israelenses.Enfurecido pelo atentado contra o ônibus, comenta-se que o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, teria aventado a hipótese de expulsar Arafat durante uma sessão emergencial do gabinete realizada ontem. Porém, o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer, apressou-se em afirmar que o plano, por enquanto, é isolar o líder palestino, e não expulsá-lo.No entanto, noticiários locais informaram que o verdadeiro objetivo por trás do cerco é fazer com que Arafat busque voluntariamente o exílio, confinando-o em um espaço muito pequeno e tornando sua vida no local insuportável. Segundo o Canal 2 da tevê israelense, Ben-Eliezer argumentou que a expulsão de Arafat seria contraproducente a apenas beneficiaria o líder palestino ao propor a Sharon o plano em andamento.Arafat disse que nunca deixará o território palestino. Os palestinos dizem que o líder corre sério risco. O gabinete onde ele se encontra tremeu muito com uma das explosões promovidas hoje pelos israelenses, disse Rdeneh. "Eles continuam implodindo prédios em torno de nós", disse ele. Enormes nuvens de fumaça formavam-se sobre o local após cada detonação.Buldôzeres israelenses começaram também a escavar profundas trincheiras em torno do local. Em seguida, soldados começaram a levantar uma cerca de arame farpado. Pessoas dentro do prédio temem que ele possa desabar a qualquer momento em virtude da demolição dos acessos internos. Agentes de segurança disseram que uma retroescavadeira abriu um buraco perto do poço de um elevador.Em outros desdobramentos nesta sexta-feira, mais cinco palestinos foram assassinados por soldados judeus, inclusive um guarda-costas de Arafat atingido por um franco-atirador israelense em Ramallah, e três civis foram mortos no decorrer de incursões israelenses na Faixa de Gaza.Os ataques israelenses foram uma retaliação ao atentado de ontem, quando um militante suicida detonou os explosivos atados a seu corpo em frente a um ônibus lotado. Além do extremista, morreram cinco israelenses e um seminarista judeu proveniente de Glasgow, Escócia.O grupo islâmico Hamas reivindicou a responsabilidade pelo atentado num panfleto enviado à TV Al-Jazira. Antes mesmo do atual cerco, o QG de Arafat fora duramente atacado em operações militares israelenses realizadas nos últimos meses. Entre março e abril, o Exército de Israel submeteu Arafat a um cerco de 34 dias.Em junho, soldados israelenses reocuparam Ramallah e quase todas as principais cidades palestinas da Cisjordânia. Desde então, Arafat não se arriscou a sair de seu QG, mesmo nos dias em que era suspenso o rígido toque de recolher israelense.Pessoas em torno do líder palestino comentaram que seu humor era relativamente bom hoje. Durante a noite, ele ficou acordado devido aos barulhos de tiros e de retroescavadeiras demolindo paredes. Mesmo assim, participou das orações de sexta-feira em seu gabinete, antes de cochilar um pouco. A água e a energia elétrica não foram cortadas, como nas ofensivas israelenses anteriores.O ministro palestino das Finanças, Salam Fayad, que disse ter dormido pouco e no chão, enrolado num cobertor, comentou que Arafat estava desafiador hoje. "Estamos confiantes em nossa habilidade de superar esta crise", declarou ele por telefone.Durante o dia, Yasser Arafat conversou com diplomatas europeus e líderes árabes. Arafat pediu a eles que pressionem para que Israel levante o cerco. Líderes árabes comentaram que Arafat buscaria uma reunião de emergência do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir a imediata retirada israelense, disse Abu Rdeneh.Washington pediu ao Estado judeu que mostre contenção ao mesmo tempo em que pediu aos palestinos que evitassem atentados contra civis israelenses. "Israel tem o direito de se defender e lidar com sua segurança, mas precisa ter em mente as conseqüências de suas ações e seu interesse no desenvolvimento das reformas nas instituições palestinas?, disse Ari Fleischer, porta-voz da Casa Branca.Os ataques ocorrem num momento no qual os Estados Unidos precisam da boa vontade do mundo árabe por sua intenção de atacar o Iraque. Rígidas ações de Israel contra os palestinos podem dissipar tal apoio.A União Européia condenou o recente atentado suicida, mas, por meio de um comunicado divulgado em Copenhague, salientou que "restringir a liberdade de movimentação do líder palestino não contribui para o combate ao terror?.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.