Israel vai às urnas com Abbas e Irã em 2º plano

Para 63% dos israelenses, prioridade é a economia; Netanyahu lidera com folga

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h03

Um paradoxo marca a eleição israelense de terça-feira, que deve manter Binyamin Netanyahu no cargo de primeiro-ministro. Israel nunca esteve tão isolado em sua disputa com os palestinos, como mostrou a votação de novembro na ONU em que Ramallah foi reconhecida como "Estado", e o programa nuclear iraniano segue à pleno vapor. Mas é pensando no preço do aluguel e da gasolina que a maioria dos israelenses depositará seu voto.

Segundo pesquisa do Times of Israel, 60% dos eleitores colocam questões socioeconômicas no topo da lista de prioridades - algo normal em países como Brasil, EUA e na Europa, mas não em um Estado que sempre viveu à sombra da guerra.

Apenas 12% do eleitorado israelense diz que o Irã é o tema mais importante atualmente. A falência do processo de paz com os palestinos, incluindo a última rodada de violência na Faixa de Gaza, no fim do ano passado, foi citada por 16% dos entrevistados.

Poucas vezes na história de Israel uma disputa nas urnas não foi dominada por temas de segurança. Na última eleição, em 2009, o assunto era o fracasso do governo Ehud Olmert nas guerras contra o Hezbollah e o Hamas. Na anterior, de 2006, o recém-criado partido centrista Kadima, do "ex-direitista" Ariel Sharon, colheu os frutos da retirada israelense de Gaza.

O cientista político Gideon Rahat, do Israel Democracy Institute, explica que, como Netanyahu levará facilmente as eleições, cada um dos demais partidos decidiu apostar na causa que lhe é mais importante. "O resultado é uma cacofonia no debate", disse ele ao Estado.

Os trabalhistas, com Shelly Yachimovich, por exemplo, encampam a bandeira da igualdade social. Yair Lapid, estrela do jornalismo israelense que entrou na política no ano passado, quer retirar os benefícios que o Estado concede aos ortodoxos em nome da laicidade de Israel.

No campo da direita, Naftali Bennett, ex-assessor de Netanyahu e empresário do setor de tecnologia - cuja rápida ascensão nas pesquisas assustou o antigo patrão -, propõe o sepultamento da solução de dois Estados, com a anexação de mais de 50% da Cisjordânia e a concessão de autonomia administrativa ao restante.

A fuga de votos para Bennett fez Netanyahu, na reta final da disputa, ampliar as garantias aos colonos da Cisjordânia. Em entrevista publicada na sexta-feira no jornal Maariv, ele prometeu que não retirará israelenses do território palestino. "Os dias das retroescavadeiras que desalojam judeus estão para trás. Não me ocupo com concessões."

Outra explicação para a vantagem folgada de Netanyahu é a "apatia" da maior parte do eleitorado israelense, afirma Anshel Pfeffer, colunista do Haaretz. Partidários da direita e extrema direita, sobretudo judeus ultraortodoxos e colonos nacionalistas, comparecem muito mais às urnas do que a população laica de Tel-Aviv e de outras cidades, a qual tende a votar nos partidos de centro e de esquerda.

Na eleição de 2009, a média nacional de comparecimento foi de 65,2%. Em bairros religiosos e assentamentos da Cisjordânia, a cifra atingiu 85%. Em Tel-Aviv, o número ficou bem abaixo: 59%. Entre árabes-israelenses, que representam um quinto da população total do país, a média foi de 52%.

As eleições em Israel deveriam ocorrer em outubro, mas Netanyahu convocou uma votação antecipada. Ele quis disputar a eleição agora, antes de aprovar medidas pouco populares para conter o déficit público.

Encruzilhada. A grande pergunta sobre a eleição não é "se", mas "como" Netanyahu será reeleito - que tipo de coalizão de governo sairá das urnas depois de terça-feira. Rahat diz que o primeiro-ministro, após vencer a eleição, se verá diante de uma encruzilhada. Ele pode, de um lado, formar uma base sólida na Knesset (Parlamento) com apoio dos partidos de direita e extrema direita. Sua posição interna estaria garantida, mas, internacionalmente, seu governo ficaria ainda mais isolado.

A alternativa seria Netanyahu migrar para o centro e tentar formar uma coalizão com partidos como o Hatnuah, da ex-chanceler Tzipi Livni, ou até mesmo com os trabalhistas. Assim, ao trazer a bordo partidários da solução de dois Estados, reduziria a pressão externa. Mas, internamente, teria problemas para manter sua coalizão, principalmente em razão de seu principal aliado, o ultrarradical nacionalista Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman. Se perder sua maioria na Knesset, Netanyahu terá de deixar o poder.

Itzhak Galnoor, professor do Departamento de Política da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma que até o governo americano "parece ter se cansado" de Netanyahu. Na semana passada, o influente colunista americano Jeffrey Goldberg publicou um artigo sobre a frustração do presidente Barack Obama com o governo israelense. Segundo Goldberg, Obama teria afirmado a assessores que o primeiro-ministro "não sabe o que é melhor para o interesse de Israel".

Para o professor da Universidade Hebraica, a Casa Branca, propositalmente, vazou a informação para o colunista com o objetivo de "dar o troco" no primeiro-ministro israelense. Na campanha presidencial americana do ano passado, Netanyahu deixou claro que apoiava o republicano Mitt Romney, intromissão criticada dentro de Israel. "Obama quis enviar uma mensagem clara - e conseguiu."

Binyamin Netanyahu

Premiê, que se uniu na campanha ao partido de seu ex-chanceler Avigdor Lieberman, deve ser o grande vencedor da eleição. Pesquisas apontam que a coligação Likud-Yisrael Beiteinu obterá 34 cadeiras de um total de 120 na Knesset (Parlamento)

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