Israel vive fim da sensação de segurança

Com as rebeliões nos países da região e a escalada da violência com os palestinos nos últimos dias, analistas preveem uma reviravolta

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

TEL-AVIV

"Diga adeus a um ambiente silencioso. É impossível saber se o cenário será o da Tunísia, do Egito ou da primeira Intifada. Em qualquer dos casos, é impossível conter a onda. Cedo ou tarde, uma grande rebelião vai atingir Israel", prevê Ari Shavit, editorialista do jornal Haaretz.

Em Israel, os eventos da última semana deram fim à sensação de segurança que prevaleceu por dois anos. Os ataques contra o sul do país com mísseis, foguetes e morteiros aumentaram significativamente nos últimos dez dias, assim como os bombardeios israelenses contra Gaza em retaliação aos ataques.

Mísseis do tipo Grad atingiram as cidades de Ashdod e Beer-Sheva, a 40 km de distância da Faixa de Gaza, que estavam imunes aos ataques desde o fim da ofensiva israelense no território palestino, há dois anos. A nova escalada da violência culminou com uma explosão em um ponto de ônibus em Jerusalém que matou 1 pessoa e feriu 38 na quarta-feira. Havia sete anos a cidade não sofria esse tipo de ataque.

Até o início da recente crise, o premiê Binyamin Netanyahu orgulhava-se em dizer que as facções radicais islâmicas temiam sua política de "tolerância zero". Mas agora ele precisa decidir se atende aos pedidos de seus eleitores direitistas, cede à pressão de seus ministros e muda suas políticas na área de segurança, ou se mantém a atual estratégia, considerada contida.

"Hamas e Israel não têm interesse em inflamar ainda mais a região. A atmosfera não favorece uma ofensiva", avalia o especialista palestino George Giacaman, que alerta para o aumento de outros tipos de violência. "Os colonos têm um papel fundamental no atual governo e podem cometer atos de violência contra palestinos."

O líder conservador é pressionado também pelos EUA a restringir ações militares. "A linha moral estabelecida pela Guerra na Líbia está clara. Ataques aéreos são permitidos. Ocupação por terra, não. Netanyahu certamente não tentará exceder esse limite em Gaza", avalia o especialista Aluf Benn no Haaretz.

Caso não haja um levante palestino ou ofensiva militar israelense e o processo de paz continue estagnado, especialistas creem que a expectativa de criação de um Estado palestino em setembro, conforme anunciado pelo premiê palestino, Salam Fayyad, pode se confirmar.

"Israel está cada vez mais isolado pela comunidade internacional, que poderia aprovar a criação da Palestina de forma unilateral, assim como aprovou a criação de Israel em 1947", explica o especialista da Universidade Hebraica de Jerusalém Yaakov Bar Siman-Tov. A relevância da mudança de status da Autoridade Palestina dependeria das medidas utilizadas contra Israel, tais como sanções.

"Mais uma vez, os EUA teriam de usar seu veto no Conselho de Segurança da ONU para salvar Israel", analisa. Mas ele avalia que tal medida poderia ser favorável aos israelenses: "Israel evitaria resolver questões que parecem impossíveis de se resolver na prática, como a dos refugiados e divisão de Jerusalém - sem alterar o atual status quo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.