Israelense nega oferta nuclear ao apartheid

Acusado em reportagem do 'Guardian' de ter negociado com África[br]do Sul racista armamento atômico, Peres acusa jornal de 'parcialidade'

Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE, NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2010 | 00h00

Israel teria oferecido armas nucleares para a África do Sul durante o regime do apartheid, informou ontem o jornal londrino The Guardian. As informações do jornal britânico têm como base documentos secretos da África do Sul obtidos pelo acadêmico americano Sasha Palakow-Suransky. Segundo o Guardian, os papéis que Suransky obteve seriam a primeira prova documental do programa nuclear israelense.

Suransky lançará nesta semana um livro sobre as relações de Israel com o regime do apartheid. O diário acrescenta ainda que as negociações eram lideradas pelo então ministro da Defesa e hoje presidente israelense, Shimon Peres. Logo depois da publicação do artigo, que repercutiu ao redor do mundo, Israel negou a acusação. O gabinete de Peres publicou ainda uma nota em inglês criticando a "parcialidade" da reportagem. O presidente afirma que não foi ouvido pelo Guardian e nega que tenha existido qualquer transação nuclear entre Tel-Aviv e a Pretória racista. "Não há base na realidade para essas acusações", afirma a nota israelense.

A divulgação do material sigiloso ocorre enquanto novas sanções ao programa nuclear iraniano são discutidas na ONU. Alguns países, como o Egito e a Turquia, dizem haver dois pesos e duas medidas no debate, já que os EUA e seus aliados ignoram o programa nuclear israelense. Na avaliação de turcos e egípcios, Israel deveria ser pressionado a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), atualmente em negociação em Nova York.

Oficialmente, Israel pratica a chamada "política de ambiguidade", sem confirmar nem negar que tenha armas nucleares. No entanto, governos e analistas internacionais são unânimes em dizer que os israelenses produzem armas atômicas há mais de três décadas - alguns afirmam que o país já tenha 300 ogivas.

"Três tamanhos". Nos documentos - classificados como "supersecretos" e citados pelo Guardian -, o trecho sobre as armas nucleares relata que o então ministro da Defesa sul-africano, Pieter W. Botha, que anos depois seria presidente, teria pedido ogivas para Peres. O israelense Nobel da Paz respondeu com uma oferta em "três tamanhos".

Para o jornal londrino, os tamanhos, na verdade, significam as variações "nuclear, química e convencional" para a carga que mísseis israelenses comportariam. Essas expressões, porém, não estão presentes no documento e seriam interpretações do repórter e do acadêmico.

O Guardian também divulgou um memorando feito pelo então chefe das Forças Armas da África do Sul, general R. Armstrong, escrito no mesmo dia do encontro de Peres com Botha. Nele, o militar diz que, "considerando os méritos do sistema de armas oferecido, algumas interpretações podem ser feitas, como a de que os mísseis serão armados com ogivas nucleares produzidas na África do Sul ou em outro lugar".

Nesse caso, não há uso da palavra "Israel" e o jornal apenas faz a relação da coincidência das datas. Além disso, na época, os sul-africanos ainda não haviam desenvolvido armas nucleares - no fim do regime, o programa foi eliminado.

"Infelizmente, o Guardian optou por escrever um artigo com base em uma interpretação seletiva de documentos da África do Sul e não em fatos concretos", afirmou ontem a assessoria do presidente de Israel. "Não existe assinatura israelense em nenhum documento informando que essa negociação ocorreu."

Peres prometeu ainda enviar uma "dura carta de reclamação" ao editor do jornal londrino e um pedido para que "os verdadeiros fatos" sejam publicados.

PARA LEMBRAR

Isolamento uniu Israel e África do Sul

Autoridades israelenses negam qualquer afinidade com a África do Sul racista e afirmam que a relação se resumiu à cooperação militar em um momento em que o Estado judeu estava isolado. Na década de 60, Israel havia criticado duramente o regime sul-africano em busca de uma aproximação com as recém-independentes repúblicas africanas. Mas, após a Guerra do Yom Kippur (1973), a situação inverteu-se e a esmagadora maioria dos movimentos negros africanos passou a apoiar a Organização para Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat. Nesse contexto, Israel aproximou-se da África do Sul racista, que passou a lhe fornecer urânio. No fim da década de 70, Pretória era o principal cliente da indústria armamentista israelense. Nos anos 80, com o crescimento da pressão internacional sobre o regime sul-africano, a aliança perdeu força.

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