Israelenses e palestinos devem se apoiar em princípios comuns

Em sua visita a Jerusalém e à Cisjordânia, o presidente Barack Obama deveria pressionar os líderes de ambos os lados a se aterem às declarações positivas, e não às negativas, para que o processo de paz possa ser levado adiante

O Estado de S.Paulo

02 de março de 2013 | 02h08

O anúncio da Casa Branca de que o presidente americano, Barack Obama, não levará consigo uma iniciativa de paz em sua iminente visita a Israel e à Cisjordânia reforça o sentimento de que ele vê a visita como uma oportunidade para restabelecer laços como os povos israelense e palestino no início de seu segundo mandato.

É certamente válido fortalecer o respaldo público em relações internacionais. É difícil conceber qualquer tipo de ruptura do impasse entre líderes israelenses e palestinos enquanto o público de ambos os lados estiver tão desconfiado como está da possibilidade de um progresso.

Mas se a Casa Branca concentrar-se nos povos, e não só nos governos, e apontar para declarações significativas que líderes de ambos lados fizeram, o resultado poderá ser um verdadeiro progresso.

Ainda há maiorias - cada vez menores - por uma solução com dois Estados. Algumas sondagens mostram, contudo, que cada lado está convencido de que o outro não aceita uma solução de dois Estados.

Como o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, são ambos avessos ao risco, somente o apoio de seus respectivos eleitorados alterará o cálculo risco-benefício na hora de fazer concessões. Ironicamente, essas atitudes públicas que constrangem os líderes são geralmente criadas ou reforçadas pelas mensagens negativas desses líderes.

Em que pesem as diferenças, Netanyahu e Abbas fizeram algumas declarações públicas significativas sobre questões-chave nos últimos anos.

Em seu discurso para uma sessão conjunta do Congresso em 2011, por exemplo, Netanyahu anunciou: "Buscamos uma paz... em que (os palestinos) não serão nem súditos de Israel nem seus cidadãos. Eles devem desfrutar de uma vida de dignidade nacional como povo livre, viável e independente em seu próprio Estado".

Abbas disse publicamente em junho de 2010: "Ninguém nega a história judaica no Oriente Médio. Um terço do Alcorão sagrado fala sobre os judeus no Oriente Médio, nesta área. Ninguém do nosso lado, ao menos, nega que os judeus estavam na Palestina, estavam no Oriente Médio".

No ano passado, Abbas disse: "Podemos pôr um fim ao conflito e às demandas históricas. ... Quando tivermos um acordo e assinarmos esse acordo, ninguém de ambos os lados estará autorizado a falar de demandas históricas".

Declarações. Infelizmente, muitas dessas declarações positivas são com frequência ignoradas ou esquecidas, já que são esporádicas e não são coordenadas para causar o maior impacto. As pessoas lembram-se, então, das declarações danosas de um lado, esquecendo as positivas. E um lado apenas não fará declarações generosas, temendo ser ridicularizado pelos linhas-duras de dentro, que acreditam que medidas desse tipo não serão recíprocas. Para essas mensagens serem eficazes, elas não deveriam ser fragmentadas nem episódicas, mas repetidas para intensificar seu impacto.

A questão que se coloca, então, é se esses líderes estão dispostos a fazer um esforço concertado para repetir essas declarações como parte de um círculo virtuoso no qual uma declaração reforçaria a outra em vez de solapá-la.

As atitudes públicas são particularmente cruciais para a paz agora que a era de líderes "maiores do que a vida" que iluminaram o caminho para a paz morreram. Já não há um Anwar Sadat ou um Yitzhak Rabin para mobilizar a maioria moderada de cada público. No passado, essas maiorias seguiram seus líderes ousados. Hoje, o cinismo e o ceticismo públicos impedem os líderes de liderar. Uma mudança nas atitudes públicas não será fácil, mas é um pré-requisito para uma ação política decisiva.

O principal temor palestino é que Israel estenda suas fronteiras até o Rio Jordão, anexando de fato a Cisjordânia e prolongando indefinidamente a ocupação. Os palestinos apontam para a expansão atual dos assentamentos como evidência da falta de sinceridade de Israel sobre alcançar a paz. Eles temem que o processo de paz produza apenas mais processos sem levar jamais a uma soberania palestina.

O principal temor israelenses é que a Autoridade Palestina não aceite a legitimidade moral de Israel como um Estado do povo judeu, com direitos iguais para todos seus cidadãos. Eles apontam para declarações de Abbas sobre Jerusalém questionando uma conexão histórica judaica com a cidade. Em março de 2010, num discurso para uma cúpula da Liga Árabe que foi transmitida pela Al-Jazira, ele disse: "Jerusalém e seus arredores são uma responsabilidade que Alá nos atribuiu. Salvá-la do monstro do assentamento e do perigo da judaização e do confisco (de terras) é um mandamento (islâmico) pessoal que nos obriga a todos". Os israelenses veem esse ponto como crítico, especialmente dadas as descrições negativas de Israel na mídia palestina e a rejeição de grupos extremistas como o Hamas. Em última instância, eles também temem que os palestinos não queiram terminar o conflito.

Missão. Em sua visita, Obama deveria insistir para autoridades de alto escalão de ambos os lados reiterarem, pública e consistentemente, princípios fundamentais para afastar os temores básicos que os cidadãos de ambos os lados nutrem pelo outro. Ele deveria deixar claro que os Estados Unidos estão ouvindo e serão críticos de mensagens negativas.

O que ele espera dos líderes também deveria ficar claro: se qualquer um deles espera extrair uma declaração similar do outro, ele precisa fazer a sua. Para ser sustentável, uma mensagem positiva terá de ser inequívoca e recíproca.

Embora seja fácil desesperar-se com o atual impasse, reengajar os públicos desconfiados de ambos os lados é uma missão factível e necessária para se alcançar algum progresso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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