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Israelenses e palestinos

Raros são os dias em que Jerusalém ou regiões de Israel não se cobrem de luto em razão de um ou dois assassinatos, com frequência em plena rua, de cidadãos israelenses.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2014 | 02h02

Na segunda-feira, no espaço de horas, ocorreu uma morte em Tel-Aviv e outra no bloco de assentamentos de Goush Etzion, na Cisjordânia. Assustados e indignados, os israelenses têm a sensação que os dias sinistros da Intifada voltaram.

Claro que o número de vítimas israelenses é bem inferior ao de palestinos da Intifada. No entanto, como sangue chama sangue, alguns israelenses inquietos e furiosos já diziam na terça-feira que havia começado "a terceira Intifada".

É verdade que os atuais incidentes, mesmo limitados, contêm um micróbio devastador: a religião. Os primeiros assassinatos, há quatro meses, foram provocados por um conflito territorial entre palestinos e israelenses.

Depois de alguns dias, a tensão, porém, vem assumindo uma conotação religiosa, sob influência dos "extremistas" de ambos os lados. Geograficamente, o epicentro do incêndio é a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. O conflito envolve a defesa dos lugares sagrados para os dois povos.

Um exemplo: na quarta-feira da semana passada, confrontos ocorreram entre jovens árabes e policiais de Israel nas imediações da Mesquita de Al-Aqsa, na Esplanada. No confronto, judeus adentraram alguns metros na mesquita. E rumores se espalharam de modo insano: "eles pisotearam o Alcorão", diziam alguns.

Esses locais sagrados são administrados desde 1967 por uma fundação jordaniana (Waqf) - entidade neutra encarregada de aquietar as reivindicações incompatíveis de árabes e judeus. Mas judeus não têm direito de orar ali. Essa Esplanada domina a Cidade Velha de Jerusalém. Os muçulmanos a chamam de "Al-Haram al-Sharif" (O Nobre Santuário) e os israelenses "Har HaBayit" (Monte do Templo).

Militantes judeus de tendência messiânica, apoiados por alguns deputados ultranacionalistas, contestam esse estatuto de 1967 - e, nos últimos tempos, têm multiplicado o número de suas visitas à Esplanada. Os jovens árabes montam guarda e se opõem. Cada vez que um grupo de judeus aparece na Esplanada, os jovens árabes - principalmente garotas, aliás - aproximam-se gritando "Allahu Akbar" (Deus é grande, em árabe).

No fim de outubro, um palestino de Jerusalém atirou contra um rabino conhecido, Yehuda Glick (de origem americana, de extrema-direita, que milita pelo retorno dos judeus ao Monte do Templo, em nome da liberdade religiosa.

Esse rabino exaltado é um pouco mais moderado quando o comparamos a outros "messiânicos", que também querem expurgar todos os árabes da Explanada. Glick se contenta em reivindicar a "coexistência" das duas religiões. E nada impede: depois dos disparos contra Yehuda Glick, foi decidido o fechamento total da Esplanada por algumas horas, o que jamais tinha ocorrido desde 1967.

Um outro projeto está na cabeça dos judeus mais agitados: a reconstrução do Segundo Templo de Jerusalém, que se encontrava no local exato onde se situa o Domo da Rocha, e foi destruído pelos romanos. Lá, encontramos outro rabino, também de origem americana, Yaakov Binyamin HaCohen Ben Arich, cujo plano é desmontar o Domo da Rocha e reconstruí-lo em Meca. O rabino sabe que essa ação poderia ser mal interpretada, mas sua resposta é fulgurante: "E daí? Que importa se devemos encarar uma terceira guerra mundial?".

Verdade? E o que importa? Tudo isso não é nada tranquilizador: a história nos ensina que guerras entre religiões são as piores. Dez vezes piores. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) transformou a Europa central numa terra devastada. Uma carnificina. Todas as guerras de religião entre católicos e protestantes extrapolaram em crueldade as guerras laicas, o que é normal, pois não se guerreia para roubar um rio ou uma floresta do inimigo, mas para assassinar um Deus.

Hoje, diante do barril de pólvora aberto em Jerusalém, só podemos tremer diante da perspectiva de que, talvez, o Estado Islâmico - que tenta estabelecer um califado no norte do Iraque e da Síria - poderia se envolver também nessa querela entre os deuses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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