Israelenses, palestinos e o risco do fracasso

Dois lados já entenderam que precisam chegar a acordo de coexistência, mas os obstáculos ainda são grandes

É COLUNISTA, THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2013 | 02h04

O secretário de Estado, John Kerry, realizou a grande proeza de convencer israelenses e palestinos a dizerem sim para os Estados Unidos. E agora, dirão sim um para o outro? Admiro a perseverança de Kerry para trazer israelenses e palestinos de volta à mesa de negociações pela primeira vez em cinco anos, deixando claro que aquele que rejeitar o apelo pela retomada das conversações será interpelado publicamente.

Também aprecio o fato de que Kerry arriscou-se a um fracasso. É por isso que ele entra para a história como secretário de Estado dos Estados Unidos. O que pode ser útil para um avanço ainda maior. Mesmo um pequeno sucesso como esse aumenta a sua autoridade e, com mais autoridade, poderá engendrar novos sucessos em outras áreas.

Dito isso, as perspectivas de um acordo entre israelenses e palestinos continuam mínimas. Na verdade, se essas negociações fossem uma peça de teatro, ela teria o seguinte título: "Quando o necessário deparou-se com o impossível".

Então, por que nos preocuparmos? Sempre achei que a regra mais importante do jornalismo é nunca tentar ir além do fato. Há muitas razões para duvidar do êxito dessas conversações, mas, quando examinamos mais a fundo, percebemos que existem algumas forças poderosas compelindo ambas as partes a concordar com Kerry - ou pelo menos concordar que vale apena pensar em dizer sim um ao outro, de modo que é bom deixar que esse teatro se prolongue mais um pouco.

Vamos começar com uma pequena informação no jornal Independent, da Grã-Bretanha, de 24 de julho, que começa assim: "Ele cantou um dia: 'Nós temos de sair deste lugar". Agora, porém, Eric Burdon não vai se apresentar de maneira alguma, pois cancelou o concerto que daria em Israel. O líder do grupo The Animals, cujos sucessos incluem House of the Rising Sun e San Franciscan Nights, se apresentaria ao lado de bandas israelenses locais em Binyamina. Contudo, em comunicado, o empresário de Burdon afirmou que a banda está sofrendo uma pressão cada vez mais forte, incluindo inúmeros e-mails ameaçadores, diariamente.

Boicote. Burdon foi o mais recente de um número crescente de artistas e intelectuais que estão boicotando Israel em razão dos territórios ocupados. A ocupação persistente da Cisjordânia vem isolando Israel cada vez mais. Pouco antes de o premiê Binyamin Netanyahu concordar com a retomada das negociações, a União Europeia anunciou novas diretrizes proibindo o financiamento ou a cooperação da UE com instituições israelenses nos territórios ocupados durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

A proibição abrange subvenções para pesquisa, bolsas de estudo e intercâmbios culturais. A UE vem analisando a possibilidade de exigir que alguns produtos fabricados em assentamentos na Cisjordânia sejam rotulados como tal (alguns Estados americanos já vêm exigindo isso) de modo a tornar mais fácil o boicote.

Essas são tendências perigosas para Israel. A UE é uma das grandes parceiras comerciais do país. A tudo isso se junta o fato de a Palestina ter obtido a condição de Estado observador não membro das Nações Unidas e, assim, o presidente Mahmoud Abbas está em posição de requerer ao Tribunal Penal Internacional investigações sobre a construção de assentamentos por Israel na Cisjordânia, considerada uma contravenção da lei internacional.

Palestinos. Por outro lado, Abbas encontrava-se numa situação em que os tumultos no mundo árabe estavam deixando a questão palestina em segundo plano e debilitando seu arquirrival, o Hamas, apoiado pelo regime sírio e pela Irmandade Muçulmana do Egito. Se Abbas, que estupidamente não aceitou a oferta do ex-premiê israelense Ehud Olmert de um acordo que previa dois Estados, em 2008, não aproveitar essa nova tentativa dos Estados Unidos, não sabemos quando surgirá uma nova oportunidade para ele.

Se tudo isto explica porque as duas partes consideraram essas conversações necessárias, o que faz com que se sinta ser impossível um acordo é o aumento dos obstáculos. Existem 350 mil colonos judeus na Cisjordânia e no mínimo entre 50 mil a 80 mil terão de ser removidos, mesmo depois das trocas de terras.

São dezenas de milhares de refugiados palestinos que vivem fora da Cisjordânia e de Gaza que terão de ser convencidos a retornar a esses dois lugares, mas jamais para suas residências de origem em território de Israel, como era antes de 1967.

O Hamas tentará usar qualquer concessão feita por Abbas para prejudicá-lo, ao passo que a direita israelense vai se enfurecer com qualquer concessão israelense no caso de Jerusalém, sem contar que os palestinos acusarão publicamente qualquer líder que não restaurar Jerusalém Oriental como capital do Estado palestino.

Cartografia. E não tenha dúvidas: a tentativa de pacificar a região terá consequências no momento em que ambas as partes apresentarem os seus mapas. Não devemos nos esquecer jamais que alguns colonos judeus são insanos.

Eles assassinaram o ex-primeiro-ministro Yitzhak Rabin quando ele tentou ceder parte da Cisjordânia em troca da paz. E não devemos subestimar a capacidade dos extremistas palestinos de provocar atos suicidas quando somente lhes restar o desespero ou sentirem que afinal seus líderes os estão traindo.

No entanto, não agir também significa um desastre, que será o controle permanente da Cisjordânia pelos israelenses. Acho que o centro de ambas as comunidades entendeu isso. Repito: eles não retornaram à mesa de conversações por acaso ou simplesmente para nos agradar.

No entanto, para chegarem a um acordo, será necessária uma nova estratégia de liderança por parte de Abbas e de Netanyahu. Eles terão de usar um ao outro como desculpa se a tentativa fracassar. Como e se farão isso é o drama que estamos prestes a assistir. Puxe uma cadeira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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