''Isso aqui não é videogame. essas aeronaves podem matar''

Entrevista[br][br]David Sullivan, comandante do 17º Esquadrão de Aeronaves de Pilotagem Remota

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Você já pilotou caças convencionais e aeronaves de pilotagem remota. Qual é a diferença?

Nos de controle remoto, não temos a sensação de movimento e nem visão tridimensional. Ficamos na estação de controle olhando para duas telas de computador a nossa frente, uma acima da outra, e duas ao nosso lado. Mas eu cheguei à conclusão que o cérebro humano consegue se projetar em um cenário. Apesar de estarmos a quase 13 mil quilômetros do local, quando o rádio começa a funcionar e passamos a ouvir as tropas no fronte, fazendo patrulhas e dirigindo comboios, passo a ter as mesmas reações fisiológicas e emoções que eu tenho quando estou pilotando um caça.

São exatamente a mesma adrenalina e ansiedade?

Temos sensações muito parecidas, as palmas das mãos ficam suadas, a audição fica mais sensível, particularmente quando soldados no fronte estão sendo atacados ou estão chegando perto do local onde o inimigo está. Quando determinam que eu devo disparar um míssil ou jogar uma bomba, as sensações são iguais a quando eu tive de disparar mísseis na Bósnia ou em Kosovo.

A diferença é que você está sentado na base em Nevada, tomando um cappuccino, em vez de estar dentro do caça desviando de inimigos.

Mesmo nos centros de controle das bases, não dá tempo de fazer nada que se pareça com relaxar. Os pilotos não estão tomando cappuccinos, não estão batendo papo com os colegas, estão muito ocupados e sérios. Aliás, a gente fica até mais ocupado do que pilotando um caça tradicional, porque você não pode olhar pela janela nem para checar o tempo, você tem várias telas de computadores e várias pessoas falando com você ao mesmo tempo, pelo fone de ouvido, mandando mensagens instantâneas, tipo chat

Você usa um joystick?

Sim, joystick e manete de aceleração, como em um caça normal.

Apesar da tecnologia, muitas vezes há enganos e mortes de civis.

Ás vezes as armas não são previsíveis, elas são mecânicas, quebram, estilhaços causam mortes. E outras vezes, o ataque é em lugares tão apertados e fechados, que para salvar vidas de americanos, temos de usar armas que podem atingir civis. E, por fim, erros acontecem. Às vezes, pessoas no fronte identificam um alvo como inimigo, mas se enganam.

Você acha que essas máquinas vão substituir totalmente os caças com pilotos?

Acho que a Força Aérea será composta predominantemente de estruturas que terão um caça principal, com piloto, e todos os outros caças da formação serão pilotados remotamente. Mas para as missões mais complexas, sempre será necessário ter um humano.

QUEM É

Foi piloto de caças como o F15-C Eagle e F-117 Nighthawk, em lugares como Kosovo, Sérvia, e Okinawa, no Japão. No fim de 2005, Sullivan mudou-se para Nevada, onde assumiu como o comando do 17º Esquadrão de Aeronaves de Pilotagem Remota (RPAs, na sigla em inglês). Ele pilota caças de controle Reapers (MQ9) e Predators (MQ1), que voam no Afeganistão e no Iraque.

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