REUTERS/Stringer
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'Isso não é Saigon’, diz Casa Branca sobre Cabul

Joe Biden fica acuado diante de críticas e governo fala em colapso ‘antes do previsto’

Beatriz Bulla / Correspondente / Washington, correspondente,, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 16 de agosto de 2021 | 06h27

WASHINGTON- “Secretário Antony Blinken, como o presidente Joe Biden entendeu isso tão mal?”, perguntou o âncora da CNN americana, Jake Tapper, ao secretário de Estado americano neste domingo ao abrir uma entrevista sobre a tomada de Cabul pelo Taleban. O apresentador deixou clara a percepção geral no país – e na equipe de Joe Biden – conforme os acontecimentos no Afeganistão se acumulavam: as coisas saíram do controle antes do imaginado.

Ao longo do domingo, nos bastidores e publicamente, autoridades americanas defenderam a retirada dos soldados, mas disseram ter havido um erro de cálculo. A expectativa do governo americano era de que o Taleban levasse meses até conseguir tomar Cabul, após a retirada das tropas. “Aconteceu mais rapidamente do que esperávamos”, disse Blinken na televisão. 

Da casa de campo presidencial em Camp David, Biden participou de uma teleconferência com a vice, Kamala Harris, Blinken e seu time de segurança nacional. Em férias de verão, ele não alterou até o momento os planos de voltar antes de quarta-feira à Casa Branca. Também não fez pronunciamentos públicos e nem deu entrevistas. Coube ao Departamento de Estado a tarefa de explicar publicamente o posicionamento do governo.

A Casa Branca divulgou uma fotografia do democrata, de camisa polo, em sua sala de controle diante das telas através das quais falou com sua equipe. Mas a imagem que rodou o mundo foi justamente a que Biden prometeu que não se repetiria: a de soldados americanos evacuados do Afeganistão pelo telhado da embaixada, em um helicóptero militar. A cena foi associada à de Saigon, no Vietnã. 

“Isso não é Saigon”, rebateu Blinken, ao vivo na televisão. “Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão, e essa missão era lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro. E nós tivemos sucesso nessa missão”, disse o secretário de Estado.

O atoleiro afegão.

O recém-lançado livro The Afghanistan Papers: A Secret History of the War (Os documentos do Afeganistão: uma história secreta da guerra, em tradução livre, do jornalista investigativo Craig Whitlock, revela que os americanos sabiam que a manutenção do governo afegão era insustentável. Todos sabiam que era uma questão de tempo, mas o governo democrata apostava que esse tempo tardaria mais a chegar.

Funcionários do governo americano, respondendo a críticas sobre a retirada rápida do Afeganistão, afirmavam que os militares afegãos superam o Taleban, com cerca de 300 mil soldados para 75 mil. “Eles têm uma força aérea, uma força aérea capaz, algo que o Taleban não tem”, disse John F. Kirby, o secretário de imprensa do Pentágono, na sexta-feira. “Eles têm equipamentos modernos. Eles se beneficiam do treinamento que oferecemos nos últimos 20 anos. É hora de usar essas vantagens.”

No fim de junho, os relatórios da inteligência americana estimavam que o governo afegão se mantivesse no poder por algo entre seis meses e um ano após a retirada completa dos soldados americanos, prevista para 31 de agosto. O prazo veio sendo encurtado, mas dias antes do estopim de ontem os americanos ainda apostaram em uma manutenção do governo de Ashraf Ghani por alguns “meses”. A quinze dias do prazo final para saída das tropas, Ghani deixou o país.

O argumento de Blinken à CNN, ao qual o governo Biden se apega, é o de que é errada a ideia de que manter as tropas no país seria o suficiente para evitar que o Taleban retomasse o controle do Afeganistão. A retirada dos soldados tem raro apoio bipartidário nos EUA, com maioria de eleitores democratas e republicanos a favor do fim da guerra que já dura 20 anos. 

O colapso do governo afegão mais rápido do que o esperado, com o consequente uso de militares para a retirada imediata de pessoal americano e a tomada de Cabul pelo Taleban, coloca em xeque não só a decisão de retirar as tropas, mas a estratégia usada pelo governo Biden. “Todo mundo viu isso se aproximando, menos o presidente”, criticou o líder republicano no Senado, Mitch McConnell. Parlamentares democratas também pressionaram Blinken e outras autoridades do governo Biden, ao serem atualizados sobre a situação pelo telefone.

No sábado, Biden culpou Donald Trump por ter assinado um acordo com o Taleban no qual se comprometeu com a retirada das tropas ainda neste ano. O acerto do antecessor com o grupo extremista, segundo Biden, colocou o Taleban na “posição militar mais forte desde 2001”. Ele disse: “Eu herdei um acordo feito por meu antecessor” que “deixou o Taleban na posição mais forte militarmente desde 2001 e impôs um prazo de 1.º de maio de 2021 às forças dos EUA”.

O presidente submergiu em Camp David enquanto as manchetes do mundo estamparam a volta do Taleban e seu governo é apontado por críticos como culpado pela queda do governo afegão. Ao longo da semana, conforme o Taleban avançava no país, ele disse que não se arrependia de sua decisão: “Mais um ano, ou mais cinco anos, de presença militar dos Estados Unidos não teria feito diferença.”

O democrata – e a Casa Branca – lembram a todo o tempo da responsabilidade compartilhada entre os dois partidos dos EUA pelos 20 anos de guerra. “Fui o quarto presidente a presidir uma presença de tropas americanas no Afeganistão – dois republicanos e dois democratas. Eu não iria, e não irei, passar esta guerra para um quinto”, escreveu Biden, um dia antes da tomada de Cabul.

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