Istambul e sua eterna volta ao passado otomano

Esqueçam a censura ao Twitter e ao YouTube; o premiê turco agora denuncia os sultões na televisão

NICK, DANFORTH, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2014 | 02h04

Seguidores casuais da política turca podem ter se surpreendido ao ler que, na longa lista de coisas que o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan denunciou ultimamente - lobby internacional da taxa de juros, lobby pornográfico e lobby do robô - ele encontrou tempo para condenar a popular novela Século Magnífico, que dramatiza a vida do sultão otomano Suleiman, o Magnífico, do século 16.

Afinal, durante quase uma década, parecia que cada reportagem sobre a Turquia nos recordava que Erdogan e seus colegas islamistas adoram o passado otomano de seu país - e os secularistas turcos, como seu herói Mustafa Kemal Ataturk, rejeitaram o Império Otomano por sua religiosidade retrógrada e fanática.

Então, por que Erdogan, que recorreu ao fechamento do Twitter e do YouTube em face de um escândalo de corrupção capaz de ameaçar sua carreira, se preocupou em se distanciar de uma descrição televisiva do sultão Suleiman? A resposta tem menos a ver com os fatos da história otomana e mais com a antiga batalha da Turquia para se apropriar deles para fins políticos.

Assim como outros clichês de Lonely Planet do país - dividido entre o Oriente e o Ocidente, ainda no limiar entre tradição e modernidade - o "neo-otomanismo" se tornou um ponto de referência quase universal para interpretar a política doméstica e externa da Turquia. Mas esta versão superficial e enganosa da Otomania da Turquia, em que islamistas pró-otomanos se defrontam com secularistas anti-otomanos, favoreceu uma compreensão equivocada da política já complexa do país.

Antes da eclosão da guerra na Síria, por exemplo, a reaproximação de Erdogan com o presidente Bashar Assad foi citada como prova de suas ambições não-otomanas. Agora é o apoio do premiê turco a rebeldes sunitas na Síria que telegrafa suas inclinações neo-otomanas. Recentemente, o crescente autoritarismo de Erdogan levou muitos a retratá-lo como um sultão à moda antiga, a despeito de suas amizades não otomanas com figuras como Silvio Berlusconi e Vladimir Putin parecerem explicar mais do que sua religiosidade.

Para os críticos do AKP, a corrupção do partido e o capitalismo de compadrio hoje parecem ser uma ameaça à herança otomana. Em resposta à proposta de transformar o Parque Gezi num shopping center estilizado como as casernas militares otomanas, manifestantes insistiram em que a imitação não substitui os edifícios históricos que estão sendo perdidos ou transformados em hotéis.

Uma área em que o apelo do AKP a um legado otomano mais tolerante ganhou apoio de liberais é a busca do partido por uma solução política para a questão curda. Erdogan procurou, ainda que de maneira inconsistente, uma abordagem mais inclusiva que foi bem sucedida em casar religião com pluralismo.

Mas há na Turquia quem ache que religião e nacionalismo andam de mãos dadas. Uma das primeiras divisões públicas entre Erdogan e o movimento espiritual e social liderado pelo clérigo Fetullah Gulen ocorreu quando os gulenistas questionaram a política curda do AKP, sugerindo que era traiçoeira, ao investigar o chefe de inteligência de Erdogan por negociarem com os curdos.

Portanto, apesar de o premiê turco enfrentar uma oposição nacionalista ao que resta da parte mais liberal de sua agenda, ele busca silenciar tanto as vozes dissidentes como novelas de televisão. Por isso, parece cada vez menos provável que o povo turco, diante de visões rivais do passado e do futuro de seu país, consiga escolher entre elas democraticamente. E quer se prefira que a história turca comece com a iluminista ocidentalização de Ataturk no século 20 ou com a tolerância iluminista dos sultões no século 15, este desdobramento sinistro só pode ser visto como uma traição. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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