Istambul e Teerã em momentos opostos?

Na Turquia e no Irã, governos tentaram sufocar o direito de manifestação de seus cidadãos - e ambos pagarão um preço por essa decisão

BARBARA, SLAVIN, FOREIGN POLICY, É PESQUISADORA DO ATLANTIC COUNCIL, BARBARA, SLAVIN, FOREIGN POLICY, É PESQUISADORA DO ATLANTIC COUNCIL, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h08

Os iranianos finalmente tiveram a chance de festejar nas ruas. A ampla vitória eleitoral do candidato menos linha-dura - o clérigo moderado e ex-negociador nuclear Hassan Rohani - desencadeou celebrações espontâneas nas principais praças e avenidas de Teerã, que as autoridades não procuraram impedir.

Mulheres tiravam os véus da cabeça e motoristas faziam soar suas buzinas num extravasamento de emoção, depois de uma campanha eleitoral controlada em que os candidatos cuidadosamente selecionados foram proibidos de realizar grandes comícios a céu aberto. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, apesar de seu desejo declarado de um grande comparecimento às urnas, não queria os eleitores muito empolgados por temer um ressurgimento das manifestações de massa que se seguiram às eleições presidenciais anteriores, em 2009. Agora, os que foram reprimidos há quatro anos recuperaram um pouco do que tinham direito.

Na vizinha e muito mais democrática Turquia, por sua vez, no sábado, a tropa de choque tornou a atacar manifestantes na Praça Taksim, em Istambul, com canhões d'água e gás lacrimogêneo. O objetivo era encerrar duas semanas de manifestações que convulsionaram o país. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que tinha chegado a um acordo com manifestantes para reconsiderar planos de construir uma réplica de uma fortaleza otomana no Parque Gezi.

O que aproxima esses incidentes de Istambul e Teerã não é apenas o fato de ser o começo do verão e de que, como diz uma velha canção, "é hora de dançar nas ruas". Desde os primeiros tempos da história registrada até o universo atual do Twitter, as pessoas se reuniram em locais centrais para expressar seus pontos de vista e ganhar força e conforto com a presença de outros com a mesma mentalidade. Cada cultura teve sua ágora, fórum, maidan, praça ou parque - um lugar onde as pessoas podem "votar com os pés". Os dirigentes da Turquia e do Irã tentaram sufocar essa forma fundamental de expressão - e ambos pagaram um preço.

Depois de terem vendido habilmente o peixe da Turquia como uma mistura moderna de islamismo e democracia, Erdogan e seus dirigentes do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) tentaram fazer um controle dos danos na última semana. "Essa é a primeira vez que vimos protestos populares de massa na Turquia", disse Soner Cagaptay, do Institute for Near East Policy, de Washington. Ele previu mais demonstrações como essas pela classe média da Turquia - uma população em rápido crescimento que, disse Cagaptay, está pedindo "respeito ao direito de reunião e associação", liberdade de imprensa e um foco no meio ambiente. Tão danosas quanto as imagens de gás lacrimogêneo e canhões d'água contra manifestantes pacíficos foi a maneira como Erdogan depreciou os manifestantes da Praça Taksim como arruaceiros e agentes de potências estrangeiras, e não cidadãos com o direito de expressar opiniões. Na sexta-feira, culpou judeus.

A linguagem de Erdogan lembra a usada por autoridades iranianas para minar o Movimento Verde, em 2009. Determinado a impedir os protestos de quatro anos atrás, quando milhões de pessoas entoando "onde está o meu voto?", este ano o governo iraniano tomou medidas para impedir manifestações de cunho político de massa. Primeiro, vetaram-se mais de 600 candidatos da disputa. Depois, as autoridades proibiram os debates entre dois candidatos, que em 2009 produziram embates dramáticos entre Mahmoud Ahmadinejad e seu principal rival, Mir Hossein Mousavi.

No fim, 72% dos 50 milhões de eleitores do Irã compareceram às urnas na sexta-feira. Mas a mensagem que eles enviaram não foi a de "resistência" que seu líder buscava. Eles escolheram um homem que prometeu atenuar o isolamento do Irã e aliviar a atmosfera pesada que transformou o país numa sociedade tão repressiva.

Enquanto isso, em Istambul, buldôzeres derrubavam tendas no Parque Gezi. E Erdogan, que pretende concorrer à presidência em 2014, já não terá sua vitória tão garantida como esperava, agora que o eleitorado se empolgou. É a democracia em ação. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Análise

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