'Itaipu não pode parar por um problema político'

Novo diretor paraguaio de usina tenta usar hidrelétrica como canal diplomático para conter crise com Brasil

Entrevista com

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h05

O novo governo paraguaio, de Federico Franco, quer usar Itaipu como um canal de diálogo diretamente com o Planalto. Nos bastidores em Assunção, há a percepção de que o Itamaraty tem uma visão mais dura em relação à crise paraguaia, enquanto outros setores e figuras do governo, como o diretor brasileiro de Itaipu, Jorge Samek, são mais "simpáticos" à causa do governo Franco. Em entrevista ao Estado, o novo diretor paraguaio de Itaipu - indicado por Franco no domingo -, Franklin Boccia, afirmou que conversou ontem com Samek e se encontrará hoje, às 14 horas, em Foz do Iguaçu, com o colega brasileiro. Ele quer que Samek envie uma mensagem à presidente Dilma Rousseff sobre a "situação real no Paraguai" - na prática, driblando o Itamaraty. Engenheiro formado pela PUC-Rio, Boccia fazia parte do conselho administrativo de Itaipu e foi uma "solução técnica" de Franco para o cargo.

Existe a intenção de usar o diretor brasileiro de Itaipu como um canal de diálogo na crise, é isso?

Por instruções do presidente (Franco) e pela amizade que tenho com Samek, a primeira coisa que fiz hoje (ontem) de manhã cedo foi conversar com ele.

E como foi a conversa?

Espetacular. Samek é uma pessoa com coração muito grande. Ele me disse que havia problemas trazidos pelos representantes do países da Unasul que estiveram aqui em Assunção e o Brasil estava olhando com atenção a esse processo. Mas ficamos de conversar amanhã (hoje) às 14 horas, em Foz do Iguaçu, para que a figura política de Samek possa influenciar o governo brasileiro e convencer a presidente Dilma. Franco e nós, que estamos em Itaipu, temos muita confiança na capacidade do Samek de fazer uma ponte de diálogo.

E por que apelar para Samek e não seguir o caminho natural, via Itamaraty?

As chancelarias estão conversando. Não sei o nível de amizade e o tipo de contato que há entre os chanceleres. Mas queremos abrir um outro caminho de diálogo para fazer chegar a Dilma a realidade do Paraguai.

E qual seria essa "realidade do Paraguai"?

Aqui não houve golpe, mas a aplicação estrita da Constituição e de seu artigo 225 (que prevê o "julgamento político" do presidente). Talvez o tempo para a defesa tenha sido curto, mas os próprios advogados (do ex-presidente Fernando Lugo) não conseguiram preenchê-lo. Foi legal, isso não tem discussão nenhuma. Converse com qualquer advogado de primeira linha aqui, todos aceitam que foi legal. Alguns falam que é ilegítimo, mas uma Câmara de Deputados, com 80 membros, teve 76 votos a favor do impeachment, e um Senado, com 45 lugares, teve 39 votos favoráveis. Eu fui deputado no Paraguai em um momento de muita convulsão política, em 1999, quando o presidente Raúl Cubas Grau renunciou. Quanto a este momento em que vivemos agora, e digo isso como alguém que conhece por dentro da política paraguaia, nunca na história deste país houve tanto consenso e uma maioria absolutíssima contra o presidente.

E se as relações Brasil-Paraguai esfriarem ainda mais, ou se o governo paraguaio for suspenso de mais mecanismos do Mercosul, qual será o impacto disso sobre Itaipu?

A presidente Dilma fez uma declaração de que todos os convênios acordados são com países, não com governos. Isso já diz muita coisa. E não pode a Itaipu binacional, a recordista mundial de produção de energia elétrica, com possibilidades de bater o recorde de novo este ano, parar por causa de problemas políticos. Itaipu é um cadeado que une Paraguai e Brasil. Além disso, aqui no Paraguai há mais de 100 mil brasileiros com filhos paraguaios e terras no país, produzindo e trabalhando aqui. Eles também já se manifestaram para que o Brasil apoie Franco.

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