Itália cansa de escândalos

Será a "condenação à morte" do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi? É o que poderíamos pensar, diante do feroz discurso feito na cidade de Perugia, no domingo, por Gianfranco Fini, ex-aliado do primeiro-ministro, que fundou com ele, em 2009, o partido Povo da Liberdade (PDI).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Fini declarou que o "Cavaliere" deve pedir demissão e alertou que, se isso não ocorrer, ministros que são seus aliados deixarão o governo de Berlusconi.

Por que esse ultimato lançado por um grande companheiro de luta de Berlusconi e seu aliado por 16 anos? A razão imediata é a nova fanfarrice do primeiro-ministro italiano, como sempre sexual.

Uma jovem de 17 anos, que participou algumas vezes das orgias de Berlusconi, foi presa pela polícia por roubo e o primeiro-ministro em pessoa pediu ao chefe de polícia de Roma que liberasse a jovem, dizendo até que ela era sobrinha do presidente egípcio, Hosni Mubarak. Uma mentira.

Não é a primeira vez que Silvio Berlusconi ostenta sua obscenidade, seu cinismo. Até agora os italianos o perdoaram, um pouco orgulhosos de ter um chefe de governo viril, machista, cantor de quarta categoria, amante de trocadilhos, provocador e vulgar. No entanto, desta vez, as escapadas e idiotices de Berlusconi começam a irritar até a classe política italiana, que tampouco é muito delicada.

Em todo o caso, foi isso que impeliu seu ex-aliado, que é outro campeão da direita italiana, Gianfranco Fini, a acossá-lo. Ora, como Fini controla 40 deputados na Câmara, ele pode derrubar o premiê italiano quando quiser.

E ele o fará? Fini é um homem brilhante, mas instável, volúvel, caprichoso.

Se é mil vezes mais racional e mais educado do que seu companheiro, sua carreira política, no entanto, é feita de meandros, reviravoltas e bifurcações. Fini, cuja família apreciava e muito Benito Mussolini, juntou-se aos neofascistas do Movimento Social Italiano aos 17 anos. Por quê? Porque os militantes de esquerda o proibiram de assistir ao filme Os Boinas Verdes (favorável à guerra americana no Vietnã) de John Wayne, que era seu ídolo.

Eis então o "jovem fascista", armado de barras de ferro e bastões.

Alguns anos depois, ele decidiu "colocar água no seu vinho" de direita. E se aliou à direita mais tradicional, mais racional, cortês. Fini elegeu-se deputado em 1987. Dissolveu o MSI, que é substituído pela Aliança Nacional, em 2001. E entrou para o governo Silvio Berlusconi. A partir daí, Fini aposta na respeitabilidade. Adquire gravatas cor-de-rosa e ternos cinza-claro. Se 11 anos antes descrevia Mussolini como "o maior homem de Estado italiano", o atual presidente da Câmara Baixa diz hoje que Mussolini "foi o mal absoluto do século 20". E Fini, que outrora tinha elaborado uma lei bastante dura contra a imigração, agora milita pelo voto dos estrangeiros nas eleições locais, e quer que seja facilitado o acesso à nacionalidade italiana.

Quando alguém observa essas suas contradições, Fini não fica absolutamente embaraçado. "Reivindico meu direito de mudar de opinião", diz ele. Uma outra curiosidade: sua primeira mulher era uma militante fascista que reacendia a chama mussolinista dia e noite. Eles se separaram. Sua nova mulher, Elizabetta Tulliani, ex-estrela da TV, é uma mulher de cabelos loiros e opiniões próximas do Partido Radical.

Depois do casamento, Fini deixou de fumar seus dois maços de cigarros por dia e anda pelas ruas de Roma de bicicleta. E depois as más línguas ou os inimigos políticos dizem que ele é um homem inteligente, mas um pouco inconstante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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