Itália começa a perder esperança de novos resgates

Ainda há 15 desaparecidos em Áquila, mas o tempo reduz a chance de que eles sejam encontrados vivos

Andrei Netto, ÁQUILA, ITÁLIA, O Estadao de S.Paulo

09 de abril de 2009 | 00h00

Tragédias e milagres seguiam se registrando ontem em Abruzzo, província do centro da Itália atingida na madrugada de segunda-feira pelo maior terremoto do país em 29 anos. O balanço oficial da defesa civil somava, no início da noite, 272 mortos e uma centena de feridos graves. Em meio ao drama, um debate político foi estabelecido em torno das declarações do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, para quem as vítimas dos tremores devem encarar os abrigos provisórios "como um fim de semana de camping".A maior parte das mortes se concentrou na cidade de Áquila, a poucos quilômetros do epicentro, e nos vilarejos vizinhos de Onna, Paganica e Castelnuovo. Mas outras localidades num raio de 30 quilômetros também registraram vítimas. Entre os 272 mortos, estão 16 crianças. E o número de perdas tende a aumentar: dos mais de 1.000 feridos que recebem tratamento médico, pelo menos 100 estão em estado grave. Outras 15 pessoas continuam desaparecidas. As chances de resgate tornam-se menores com o passar do tempo e com a sucessão de réplicas sísmicas. Desde segunda-feira, cerca de 300 tremores de menor intensidade do que o principal foram verificados pelos sismógrafos - os maiores, às 19h45 e às 23h30 de terça-feira, foram de 5,3 e 3,8 graus na escala Richter.Apesar das estatísticas cada vez mais sombrias, a solidariedade continua movendo o trabalho dos bombeiros e paramédicos em Áquila. Desde o início das buscas, 150 pessoas foram retiradas com vida dos escombros. Na noite de terça-feira, 40 horas após o tremor, a estudante Eleonora Calesini, de 20 anos, foi resgatada dos restos de um prédio de cinco andares.Enquanto os resgatistas lutam contra o tempo, o governo faz uma ofensiva para reverter a imagem negativa causada pelo menosprezo aos alertas do sismólogo Gioacchino Giuliani - que havia alertado as autoridades sobre o risco de um terremoto catastrófico na região de Abruzzo. Ontem, Berlusconi voltou a Áquila para acompanhar o atendimento às vítimas, mas passou mais tempo tendo de se explicar sobre a última de suas gafes, sobre a situação "confortável" dos 17 mil desabrigados. A realidade nos campos de refugiados, entretanto, é diferente da imaginada pelo primeiro-ministro. Ainda não há tendas para todos e centenas de pessoas passam as noites em automóveis à espera de novos abrigos. Em Paganica, a 8,8 quilômetros do centro de Áquila, o número de sem-teto é um dos maiores da região. Mesmo elogiando o apoio prestado pela defesa civil, Luca Federici, caminhoneiro de 25 anos, mostrava-se abatido ontem com as condições do acampamento: segundo ele, a fome é maior que a distribuição de alimentos, o frio é intenso nas madrugadas e a falta de condições de higiene ainda não foi resolvida. "Falta tudo", resumiu ao Estado, abrindo um gorro de lã no qual guardava um molho de chaves, um telefone celular, uma embalagem de analgésicos e seus últimos cigarros. "E tudo o que me restou cabe aqui. Não temos perspectivas."No mesmo campo, Luca de Paulis, estudante de 27 anos, e seu irmão, Piero, comerciário de 25 anos, planejam deixar as barracas tão logo seja possível, mas também se mostram desorientados. Uma das principais críticas ao governo diz respeito à demora na liberação de verbas para um plano de reconstrução. "Queremos ir embora de Paganica", afirmou Luca. Atormentado pelas dúvidas, ele se perguntou a seguir: "Mas para qual lugar? E quando?"Em Onna, vilarejo de 300 habitantes onde 40 pessoas morreram em decorrência do tremor, uma comitiva de parlamentares inspecionou a destruição e a situação dos desabrigados sob as tendas distribuídas do Ministério do Interior.A entrada de moradores - assim como de jornalistas - no coração da vila continua interditada pela polícia, por causa do risco de novos desabamentos.GAFESilvio BerlusconiPremiê italiano"(As vítimas) têm medicamentos, comida quente. Têm um abrigo para a noite. Evidentemente, seu alojamento atual é um tanto temporário. Mas elas deveriam considerá-lo como um acampamento numfim de semana"

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