Itália recua em lei antiimigrante

Berlusconi diz que status de ilegal seria agravante em casos de estrangeiros que cometam delitos

AP e Reuters, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 00h00

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, voltou atrás ontem na proposta de seu governo de tornar a imigração ilegal um crime com pena de até 4 anos. Desde que assumiu o governo em maio, Berlusconi vem endurecendo o discurso em relação aos imigrantes ilegais e às comunidades ciganas (romas).Durante entrevista coletiva com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, Berlusconi afirmou que os estrangeiros em situação irregular não deveriam ser condenados simplesmente por ser imigrantes ilegais. Para o premiê, o status de ilegal deveria ser considerado um agravante caso o estrangeiro cometa um crime. A Liga do Norte, um dos partidos de direita que apóiam o governo, considerou ''traição'' a mudança de posição de Berlusconi.O projeto original do governo prevê ainda o confisco de apartamentos alugados para imigrantes ilegais, processo de expulsão mais rápido e extensão do tempo que os estrangeiros podem ficar presos nos centros de detenção.A lei antiimigrante ainda terá de ser votada pelo Parlamento, onde o premiê tem maioria. ''O Parlamento italiano é soberano e decidirá (a aprovação da proposta do governo) de acordo com sua consciência'', disse.A proposta vinha sendo duramente criticada por organizações de direitos humanos e pela comunidade internacional, que temem que sua aprovação fomente a xenofobia e o racismo. Para a chefe da agência de direitos humanos da ONU, Louise Arbour, o projeto italiano é um exemplo de repressão e intolerância.Na segunda-feira, o Vaticano também criticou a proposta italiana. Segundo o arcebispo Agostino Marchetti, os imigrantes ilegais não devem ser tratados como criminosos, uma vez que os estrangeiros que trabalham contribuem para a sociedade.A Itália registrou no ano passado número recorde de entrada de imigrantes e tem hoje 3,5 milhões de estrangeiros. Vários setores da população, assim como em vários outros países europeus, se ressentem do aumento da competição por empregos, acusam os estrangeiros de serem responsáveis pelo aumento da criminalidade e, em alguns casos, vêem os imigrantes como uma ameaça a sua identidade nacional.Além das críticas à lei antiimigrante, organizações de direitos humanos também vêem com preocupação a campanha do governo para ''combater a emergência cigana''. No sábado, Berlusconi publicou no diário oficial italiano a aprovação de direitos extraordinários para os prefeitos de Roma, Nápoles e Milão para ''realocar e expulsar'' ciganos da crescente população da etnia roma, originária da Romênia. Ainda no sábado, o ministro do Interior, Alfredo Mantovano, disse em entrevista que os ciganos estão ''associados a roubos, assaltos e seqüestros''.Ontem, membros da Liga do Norte bloquearam obras em Veneza para a construção de um acampamento cigano. Para o deputado do partido Corrado Calleghari, a prefeitura de Veneza, que está financiando o projeto, está dando dinheiro para pessoas cuja sobrevivência está baseada na delinqüência.Segundo dados oficiais, há 152 mil ciganos vivendo na Itália, dos quais 37% têm nacionalidade italiana.

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