Itália se prepara para atos anti-globalização

Seattle, Davos, Porto Alegre, Gotemburgo: será preciso acrescentar a esta ladainha de manifestações anti-globalização a cidade italiana de Gênova, onde será realizado neste fim de semana, de 20 a 22 de julho, uma reunião do G8 (os sete países mais ricos do mundo, mais a Rússia)? A Itália tem medo. Berlusconi, que inspecionou o "campo de batalha", como Napoleão em Austerlitz, declarou estar tranqüilo. Mas barreiras antidistúrbios, atiradores de elite postados em telhados, 15.000 policiais, áreas proibidas, tudo isso prova que se espera o pior por parte dos 100 mil contestadores que anunciaram sua presença na cidade. Um paradoxo: para conter as hordas antiglobalistas, a Itália deixou de lado os acordos de Schengen - acordos tipicamente "globalistas", pois permitem a livre circulação entre sete países da Europa. Imediatamente, os "anti-globalistas" protestaram contra o não-cumprimento desses acordos globalistas de Schengen. É claro: tudo agora está às avessas. Desde esta segunda-feira, os adversários da globalização decidiram desenvolver suas próprias teses num fórum. Os assuntos previstos são muito mais amplos do que em anos anteriores. Até agora, os anti-G7 (ou G8) se concentravam no "cancelamento das dívidas do Terceiro Mundo". Neste ano, outras frentes contra a globalização serão abertas: a precariedade do trabalho, a destruição do meio ambiente, o egoísmo do capitalismo financeiro, o direito à saúde nos países pobres. Mas, no próprio seio das hostes antiglobalistas, já aparecem algumas tendências divergentes. Com o passar dos anos, e também com as respostas cada vez mais enérgicas das cidades organizadoras, as atitudes estão mudando. Neste sentido, a última reunião da globalização em Gotemburgo teve um papel de advertência. Em Gotemburgo, a polícia sueca, descontrolada, perdeu o sangue-frio e disparou balas reais, deixando três feridos graves. E isso escandalizou o mundo todo: os chefes de Estado (em primeiro lugar, Jacques Chirac, da França) e também, naturalmente, os manifestantes. Imediatamente, foi levantada a questão da violência. E os manifestantes se dividiram entre os adeptos da provocação aberta e os que gostariam de manter um diálogo cortês, humanista e respeitoso. Algumas organizações contestatárias já decidiram não participar das manifestações em Gênova. É o caso da Cancelem a Dívida, dos britânicos, e também de cerca de 60 associações católicas italianas que decidiram manter certa distância. Uma grande efervescência agita todos os grupos: alguns (os Amigos da Terra) propõem moderar o jogo e ostentar um distintivo pacifista com estes dizeres: "Mudança sem violência". "As mudanças climáticas, as crueldades das dívidas gigantescas já não são uma violência?" - perguntam eles. O Greenpeace prefere renunciar à violência, embora compreendendo "as cóleras, até mesmo violentas, de alguns". A mesma posição moderada é defendida pela Attac, que deseja calma, mas não pretende dissociar-se dos numerosos militantes que se converteram à violência. E existem grupos que se declaram partidários decididos da violência. De modo geral, são partidários de tudo o que procede do impulso libertário, que engrossa a cada ano. Uma organização até ontem desconhecida tenta galvanizar esse impulso libertário: é a Aarrg (Aprendizes de Agitadores para uma Rede de Resistência Global), que se inspira no movimento dos "invisíveis" italianos, no Movimento de Resistência Global, dos espanhóis, ou no grupo Reconquistar a Rua, dos ingleses. Todos estes movimentos têm um ponto em comum: sua versatilidade e sua resolução. Eles preconizam a desobediência civil. "A verdadeira novidade não reside nos atos violentos de uma minoria de manifestantes, mas na intensidade da repressão policial", informa a Aarrg. E eles estão preparados para uma ação na sexta-feira ou no sábado: juntamente com os anarquistas italianos do movimento Todas Brancas, farão uma passagem programada pela "zona vermelha", cercada pelas forças policiais , onde a circulação está proibida.

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