EFE/ Alessandro Di Meo
EFE/ Alessandro Di Meo

Itália se torna o maior país da UE a ser governado por uma coalizão populista

Coalizão antissistema entre Movimento 5 Estrelas e Liga será comandada por Giuseppe Conte; depois de dois meses e meio de impasse eleitoral, jurista e professor universitário foi designado sob críticas por mentiras em CV

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 05h00

Quarta maior economia da União Europeia, a Itália tornou-se ontem o primeiro país fundador do bloco a ser governado por uma coalizão populista e antissistema. A situação, inédita nos mais de 50 anos do bloco, foi sacramentada quando o presidente, Sergio Mattarella, anunciou o nome do jurista e professor Giuseppe Conte como novo primeiro-ministro. Quinto premiê em cinco anos, ele já assume sob críticas.

Indicado pela coalizão formada entre o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) e a Liga, legenda de extrema direita, Conte, de 53 anos, já havia se tornado há uma semana o virtual premiê, à espera apenas da chancela presidencial. No final da tarde de ontem, ele chegou de táxi ao Palácio Quirinal para encontrar Mattarella. 

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Ambos tiveram uma reunião de duas horas a portas fechadas. No fim do encontro, o presidente italiano finalmente encarregou Conte de formar um governo, encerrando as negociações políticas iniciadas em 4 de março, após a eleição legislativa italiana.

Em uma breve declaração à imprensa, que não pôde fazer perguntas, Conte disse ser “advogado de defesa do povo italiano” e garantiu que implementará o “contrato governamental” assinado entre os dois partidos. O programa, segundo ele, “representa todas as expectativas de mudança dos italianos”. 

Primeiro lugar. O novo premiê assinalou, já em seu primeiro pronunciamento, que não tem a intenção de iniciar um processo de ruptura entre Roma e Bruxelas, mas que pretende “confirmar o lugar da Itália na Europa e no mundo”.

“Lá fora há um país que espera o nascimento de um governo de mudança e espera respostas”, afirmou. “Eu me preparo agora para defender os interesses de todos os italianos diante de todas as instâncias, dialogando com as instituições europeias e com os representantes de outros países.”

Apesar das palavras conciliatórias, a nomeação de Conte soou o alarme em Bruxelas, em especial após a revelação dos detalhes do “contrato governamental” dos dois partidos populistas. As propostas de corte de impostos, abdicação de uma reforma previdenciária – no país mais idoso da Europa Ocidental – e criação de um programa de renda universal, que pretende dar € 780 por mês a aposentados e pessoas de baixa renda, devem custar ao país entre € 100 milhões e € 170 milhões anuais.

A grande questão em Bruxelas é como o governo populista pretende financiar seu programa com uma dívida de € 2,3 bilhões – de 132% do PIB, a segunda mais alta da Europa, atrás da Grécia. Ontem, a Comissão Europeia manifestou o desejo de que Roma mantenha o caminho da estabilidade financeira, sob pena de ver os juros da dívida do país em mãos de investidores privados subir. 

O temor da União Europeia com a saúde financeira italiana se justifica, pois o sistema financeiro nacional é frágil e uma crise na Itália causaria um risco sistêmico no bloco. 

A questão, portanto, é se Conte conseguirá sobreviver às adversidades políticas. Professor de Direito da Universidade de Florença, o jurista mentiu em seu currículo, informando passagem pela Universidade de Nova York, nos EUA, e na Sorbonne, em Paris – ambas as instituições não têm registros dele como aluno. 

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