Remo Casilli/Reuters
Remo Casilli/Reuters

Itália vira o jogo no combate ao coronavírus

Depois de um difícil começo, país deixa de ser pária global e se torna modelo – ainda que imperfeito – de contenção viral

Jason Horowitz / The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2020 | 04h00

ROMA - Quando o coronavírus explodiu no Ocidente, a Itália tornou-se o seu epicentro em um clima de verdadeiro pesadelo, um lugar a ser evitado a todo custo, e um símbolo, nos Estados Unidos e em grande parte da Europa, de contágio incontrolável.

“Vejam o que está acontecendo com a Itália”, disse a repórteres o presidente Donald Trump no dia 17 de março. “Não queremos nos encontrar em uma situação como essa”. Joe Biden, o provável indicado democrata às eleições, ressaltou os hospitais superlotados da Itália como prova de sua oposição ao Medicare para Todos em um debate presidencial. “Neste momento, não está funcionando na Itália”, afirmou.

Meses mais tarde, os Estados Unidos já haviam sofrido dezenas de milhares de mortes a mais do que qualquer outro país no mundo. Os países europeus que outrora olhavam com presunção para a Itália enfrentam agora novos surtos. Alguns começam a impor novas restrições e pensam em decretar mais uma vez o lockdown.

O primeiro-ministro do Reino UnidoBoris Johnson, anunciou na sexta-feira o adiamento de flexibilização planejada das medidas no país dado o aumento do contágio. Até a Alemanha, elogiada por sua eficiente resposta e rigoroso rastreamento dos contatos, advertiu que o comportamento relapso está provocando uma nova onda de casos.

E a Itália? Seus hospitais estão basicamente vazios de pacientes de covid-19. O número de óbitos diários atribuídos ao vírus na Lombardia, a região norte que suportou o impacto mais violento da pandemia, estão em torno de zero. O número de novos casos diários despencou e é “um dos mais baixos da Europa e do mundo”, afirmou Giovanni Rezza, diretor do departamento de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Saúde. “Nós fomos muito prudentes”.

E contaram também com muita sorte. Hoje, apesar do pequeno surto de casos desta semana, os italianos estão sendo cautelosamente otimistas no controle do vírus – enquanto os especialistas da área de saúde alertam que a complacência continua sendo o combustível da pandemia. Como eles sabem, o quadro pode mudar a qualquer momento.

A maneira como a Itália conseguiu passar de um excluído no plano global a modelo – embora imperfeito – de contenção do vírus tem novas lições para o restante do mundo, incluindo os Estados Unidos, onde o vírus, que nunca esteve sob controle, agora devasta o país.

Após um começo conturbado, a Itália consolidou ou pelo menos preservou a recompensa por um rigoroso fechamento nacional graças a uma mescla de vigilância e experiência médica, adquirida da maneira mais dolorosa.

Seu governo se pautou pelas recomendações de comissões científicas e técnicas. Os médicos, os hospitais e as autoridades de saúde reúnem mais de 20 indicadores diários sobre o vírus e os remetem às autoridades regionais, que então os mandam para o Instituto Nacional de Saúde.

O resultado é um raio-X semanal da situação da saúde no país e, com base nele, as decisões estratégicas são tomadas. O que está muito distante do estado de pânico, e quase colapso, que se abateu sobre a Itália em março.

Esta semana, o Parlamento aprovou em votação a prorrogação dos poderes de emergência do governo até 15 de outubro, depois que o primeiro-ministro Giuseppe Conte afirmou que a nação não poderia baixar a guarda, “porque o vírus continua circulando”.

Esses poderes permitem que o governo mantenha as restrições e reaja rapidamente - incluindo o fechamento – a novas aglomerações. O governo já impôs restrições de viagens a mais de dez países para a Itália, porque atualmente a importação do vírus do exterior é o maior medo do governo.

“Há uma variedade de cenários na França, Espanha, Bálcãs, o que significa que o vírus não desapareceu completamente”, afirmou Ranieri Guerra, médico italiano que é o diretor-geral assistente de iniciativas estratégicas da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Ele pode voltar a qualquer momento”.

Não há dúvida de que as privações do lockdown tiveram um custo econômico. Durante três meses, empresas e restaurantes permaneceram fechados, a livre movimentação foi reduzida drasticamente – entre as regiões, cidades e ruas – e o turismo parou. Este ano, a Itália deverá perder aproximadamente 10% do seu Produto Interno Bruto (PIB).

Mas a certa altura, enquanto o vírus ameaçava espalhar-se de maneira incontrolável, as autoridades italianas decidiram colocar as vidas à frente da economia. “A saúde do povo italiano vem e sempre virá em primeiro lugar”, afirmou Conte na época.

As autoridades italianas agora esperam que o pior tenha vindo em uma enorme dose única – um doloroso fechamento – e que o país esteja seguro para poder voltar à vida normal, embora com limites. Elas afirmam que a única maneira de pôr em movimento a economia é mantendo o vírus fortemente controlado, mesmo agora.

A estratégia de fechamento total alimentou as críticas de que a excessiva cautela do governo estava paralisando a economia. No entanto, poderá revelar-se mais vantajosa do que tentar reabrir a economia enquanto o vírus continua castigando a população, como está acontecendo em países como EUA, Brasil e México.

O que não significa que os apelos para que se observe uma vigilância constante, como nos outros países do mundo, tenha sido imune a deboches, resistências e irritação. Nisto, a Itália não foi diferente.

As máscaras muitas vezes não são usadas ou são abaixadas nos trens e ônibus, onde, no entanto, são obrigatórias. Os jovens estão saindo e fazendo as coisas que os jovens costumam fazer – e desse modo correm o risco de espalhar o vírus para partes mais suscetíveis da população. Os adultos começaram a se reunir na praia e nos churrascos das comemorações familiares. Até este momento, não há um plano claro para um retorno às aulas em setembro.

Há ainda um contingente em rápido aumento, politicamente motivado, contrário à máscara liderado pelo nacionalista Matteo Salvini, que no dia 27 de julho declarou que a substituição do aperto de mão e dos abraços pela aproximação dos cotovelos era “o fim da espécie humana”.

Nos seus comícios, Salvini, líder do partido populista da Liga, ainda distribui apertos de mão e usa sua máscara como suporte do queixo. Em julho, durante uma entrevista coletiva, ele acusou o governo italiano de importar imigrantes infectados para criar novas aglomerações e estender o estado de emergência.

Esta semana, Salvini uniu-se a outros céticos do uso da máscara - que os críticos apelidaram de “negacionistas”– para um protesto na biblioteca do Senado, juntamente com hóspedes especiais como o cantor italiano Andrea Bocelli, que disse não acreditar que a pandemia seja tão grave porque “conheço muitas pessoas e não sei de nenhuma delas que tenha acabado em uma UTI”.

Mas os principais especialistas em saúde do país afirmam que a ausência de casos graves indica um decréscimo do volume de infecções, porque apenas uma pequena porcentagem dos infectados adoece gravemente. Até o momento, os italianos descontentes não têm sido numerosos ou poderosos o bastante para minar a trajetória de sucesso conquistada com muito trabalho no combate ao vírus, depois de um início calamitoso.

O isolamento inicial da Itália por parte dos vizinhos europeus no início da crise, quando máscaras e respiradores mal conseguiam passar pelas fronteiras, pode ter contribuído de fato, afirmou Guerra, o especialista da OMS.

“Inicialmente, houve muita competição, não houve colaboração”, acrescentou. “E todos admitiram que a Itália havia sido abandonada naquela época”. “Consequentemente”, prosseguiu, “o que eles foram obrigados a fazer naquele momento por terem sido abandonados revelou-se mais eficiente do que outros países".

Em um primeiro momento, a Itália ordenou a quarentena de cidades e depois da região da Lombardia, no norte do país, e então em toda a península e suas ilhas, apesar da ausência, praticamente, do vírus em grande parte do centro e do sul da Itália. Isto não só impediu que os trabalhadores do norte industrializado retornassem às suas casas no sul, muito mais vulnerável, como também promoveu e forçou uma ação nacional unificada.

Durante o lockdown, a movimentação das pessoas foi rigorosamente limitada entre as regiões e as cidades e até mesmo entre os bairros nas grandes cidades, e as pessoas tiveram de preencher formulários de “auto-certificação para provar que precisavam sair para trabalhar por motivos de saúde ou por “outras necessidades”. As máscaras e o distanciamento social foram aplicados por algumas autoridades regionais com multas consideráveis. Em geral, embora de má vontade, as normas foram obedecidas.

À medida que as cenas arrasadoras de sofrimento humano, as ruas vazias e o pesado custo em termos de vidas de toda uma geração de idosos se espalharam pelo norte da Itália, a taxa de transmissão do vírus decresceu rapidamente, e a curva se achatou, ao contrário de outros países europeus, como a Suécia, que buscou uma alternativa ao fechamento.

O surto inicial ficou localizado nos hospitais lotados onde criou um enorme stress, mas também permitiu que médicos e enfermeiros acelerassem o rastreamento dos contatos.

Então o país reabriu gradativamente, expandindo as liberdades com intervalos de duas semanas para fazer frente ao período de incubação do vírus.

O fechamento teve o efeito secundário de diminuir o volume do vírus em circulação na sociedade, reduzindo assim a probabilidade de contato com alguém que o tinha. No final do lockdown, a circulação do vírus caiu vertiginosamente e em algumas regiões centrais e do sul, praticamente não houve cadeias de transmissão.

“É sempre uma questão de probabilidade no caso destes patógenos”, afirmou Guerra, acrescentando que novos sistemas de alarme prévio como o monitoramento das águas do esgoto para buscar traços do vírus baixaram ainda mais a probabilidade de infecção.

Alguns médicos italianos acreditam que atualmente o vírus está se comportando de maneira diferente na Itália. Matteo Bassetti, infectologista da cidade de Gênova, no noroeste do país, afirmou que durante o pico da crise, o seu hospital foi inundado por 500 casos de covid-19 ao mesmo tempo. Agora, a sua unidade de terapia intensiva, com 50 leitos, não tem pacientes de coronavírus, e a unidade de 60 leitos construída especialmente para a crise está vazia.

Ele disse que pensou que o vírus se estivesse enfraquecendo – visão que não foi comprovada, admitiu, no entanto encontrou um público ávido em Salvini e outros políticos que se opõem à prorrogação do estado de emergência.

A maioria dos especialistas da área de saúde disse que o vírus ainda paira no ar, e enquanto o governo considera um novo decreto para a reabertura das boates, dos festivais e das viagens de cruzeiro, muitos deles imploraram o país a não baixar a guarda.

“Mesmo que a situação esteja melhor do que em outros países, devemos continuar sendo muito prudentes”, afirmou o dr. Rezza, do Instituto Nacional de Saúde, e acrescentou que acredita que a indagação a respeito do que a Itália fez corretamente deverá ser colocada “no final da epidemia.”

“Não devemos excluir a ocorrência de surtos na Itália nos próximos dias”, afirmou. “Talvez seja apenas uma questão de tempo”. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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