‘Italianos estão sob grave crise institucional’

Instabilidade na Itália será de ‘longa duração’ e Renzi, provável substituto de Letta, não terá muitas opções, afirma analista

Andrei Netto, Correspondente / Paris - O Estado de S. Paulo,

13 de fevereiro de 2014 | 23h33

PARIS - Leonardo Morlino, um dos mais importantes cientistas políticos da Itália, diz que a queda do primeiro-ministro Enrico Letta "não era do interesse" do país. A seguir, trechos da entrevista com o analista.

Como o sr. vê a saída de Letta?

Podemos considerar que está feito, que Letta deixou seu posto, e Renzi será o primeiro-ministro. Mas ainda não sabemos tudo o que ocorreu nessa crise. Por isso, é difícil fazer uma análise precisa. O fato é: não creio que a demissão de Letta fosse do interesse do Partido Democrático ou da população italiana. Estou muito pessimista. A situação política do país é muito grave, de plena crise política e institucional. Pode melhorar se a situação econômica mudar, mas a Itália está mergulhada em uma crise política de longa duração.

Letta foi derrubado por um colega de partido. Isso é inédito na Itália?

Isso já ocorreu na época em que a Democracia Cristã (DC, maior partido da Itália entre 1948 e 1992) esteve no poder. Veja bem: em média, a duração de um governo entre 1948 e 1992 foi de um ano, entre 12 e 13 meses. É verdade que, entre 1983 e 1987, tivemos um governo de longa duração com Bettino Craxi. No entanto, a média é sempre baixa. Já houve mudanças antes que não ocorreram por força de eleições, como agora. Podemos lembrar de 1998, quando Romano Prodi pediu demissão e Massimo D’Alema se tornou primeiro-ministro.

E por que Letta caiu?

Até aqui, Renzi dizia que se tornaria primeiro-ministro depois das próximas eleições. Mas ele mudou de ideia e não sabemos o porquê. Talvez haja alguma relação com decisões feitas fora da Itália, na Alemanha de Angela Merkel ou até nos EUA de Barack Obama. Há alguma coisa que não sabemos nessa história. É difícil entender uma virada tão rápida.

Letta fazia um mau governo?

O governo Letta fez muito pouco. O primeiro-ministro tem um observatório, cujas análises recente indicaram que apenas 10% das medidas propostas por Letta foram de fato implementadas. O governo de Mario Monti, de 2011 a 2013, havia tomado cerca de 40% de suas decisões. Logo, pode-se dizer que Letta comandou um governo que realizou muito pouco. Mas suas condições eram muito difíceis e justamente agora ele teria a possibilidade de fazer mais, se tivesse o apoio de Renzi.

Qual é o papel do ex-premiê Silvio Berlusconi na queda?

Não creio que Berlusconi tenha tido papel na queda de Letta. Veremos nos próximos dias se estou enganado ou não. Veremos se Berlusconi fará um acordo sobre reformas constitucionais e se ficará de fora do governo. Nada disso está claro.

Quem é exatamente Renzi?

Renzi é um líder moderado, de centro, católico, um pouco tradicional. Se ele fizer uma coalizão de centro, formará um governo diferente do de Letta. Mas o que mais ele pode fazer? Talvez, ele seja mais forte como personalidade política. Mas isso é suficiente? Veremos se pode fazer um governo com políticas mais atuais, mais contemporâneas. Mas há várias questões em aberto.

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