Itamaraty colaborou com caça a exilados

Diplomatas brasileiros deram informações a chilenos e tentaram abafar denúncias

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 02h14

O apoio do Brasil à perseguição de opositores no Chile, após o golpe de 1973, foi além dos aparatos militar e de inteligência. O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, colaborou ativamente na caça a brasileiros exilados em território chileno e estimulou a recém-formada junta militar de Santiago a compartilhar informações sobre "subversivos".

Ao mesmo tempo, em Brasília, diplomatas da Casa de Rio Branco fizeram lobby no Congresso para abafar as primeiras denúncias de que cidadãos brasileiros estavam sendo torturados ou haviam "desaparecido" nos porões chilenos. Essas revelações estão entre centenas de documentos secretos recentemente liberados da diplomacia chilena, aos quais o Estado teve acesso.

Quatro meses após o golpe de 1973, a Divisão de Segurança e Informação do Itamaraty forneceu aos chilenos a lista completa, com fotos e fichas, dos 40 presos políticos trocados pelo embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried Von Holleben, em junho de 1970. O objetivo era auxiliar chilenos a identificar e prender os brasileiros.

Em um despacho "estritamente secreto" a Santiago, o embaixador do Chile no Brasil, Hernán Cubillos, disse que seu "interlocutor" - que não é identificado - na chancelaria brasileira expressou com "insistência o desejo que o governo brasileiro tem de colaborar" na caça aos opositores. O diplomata brasileiro teria oferecido, em troca, a possibilidade de o Chile passar listas de pessoas que "fugiram ou que interessa capturar" no Brasil.

"O governo brasileiro, além de estar intimamente ligado à nossa realidade atual, pelas circunstâncias que viveu, tem vasta experiência na matéria", escreveu o representante chileno em Brasília.

A resposta da chancelaria de Santiago a ele veio dias depois: "A informação fornecida será de grande utilidade e já está permitindo determinar o paradeiro de alguns dos indivíduos que participaram do sequestro do ex-embaixador da (Alemanha) no Brasil."

Colaboração. O "favor" ao Brasil foi cobrado logo em seguida, quando o embaixador chileno pediu ao Itamaraty informações sobre Sônia Eliana Lafoz, codinome "Mariana", que militara na VAR-Palmares, no MR-8 e estivera envolvida em várias ações armadas importantes, como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros e o sequestro do embaixador alemão.

A chancelaria brasileira forneceu uma foto e informações sobre Sônia, e ficou de repassar mais dados. No entanto, o diplomata que recebeu o embaixador chileno fez mais um pedido na ocasião: que Santiago fornecesse a lista completa de exilados brasileiros que haviam sido presos ou fugido para países latino-americanos.

Essa relação do paradeiro dos brasileiros veio no avião do ditador Augusto Pinochet, quando ele viajou a Brasília para assistir à posse do presidente Ernesto Geisel, em março de 1974. O chefe de gabinete da chancelaria chilena entregou o documento ao Itamaraty.

"Agradeceram nossa colaboração, que lhes permitirá detectar o atual paradeiro desses elementos", escreveu o representante do Chile em Brasília. Diplomatas brasileiros ainda corrigiram nomes que tinham erros - "seguramente por razões idiomáticas", segundo o embaixador chileno.

Lobby. Em meio às denúncias de violação dos direitos humanos no Chile, congressistas do MDB começaram, em meados de 1974, um movimento para que o chanceler do Brasil, Mário Gibson Barbosa, comentasse publicamente a situação dos exilados brasileiros em território chileno.

O deputado baiano Chico Pinto acabou com o mandato cassado por "difamar" Pinochet em um discurso na Câmara. De acordo com o embaixador chileno em Brasília, o Itamaraty fez gestões com líderes do Congresso para que barrassem o pedido de esclarecimentos sobre os exilados brasileiros. Ao final, prevaleceu o silêncio.

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