Itamaraty tenta superar crise após fuga de senador

Diplomatas estão divididos sobre quem culpar e irritados com Dilma e com a demissão de Antonio Patriota

LISANDRA PARAGUASSU , BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h03

Depois da demissão de um ministro e com dois diplomatas sob investigação, o governo brasileiro deu por encerrada a crise com a Bolívia, causada pela fuga do senador Roger Pinto Molina de La Paz. Nos corredores do Itamaraty, porém, as feridas causadas pela ação solitária de Eduardo Saboia vão demorar a cicatrizar.

Divididos sobre quem culpar, irritados com a demissão de Antonio Patriota - de um modo geral, bem quisto dentro da diplomacia - e temerosos com as consequências futuras da crise, os diplomatas não conseguem esquecer o assunto.

Há claramente dois lados dentro do Itamaraty: os que defendem a ação de Saboia e aqueles que até entendem a reação do colega, mas o culpam por não respeitar a hierarquia e causar a queda do chanceler.

Ainda assim, ninguém quer vê-lo receber punição severa. A esperança é que o diplomata, com 24 anos de carreira, não sofra mais do que uma advertência escrita ou, talvez, uma suspensão leve.

No entanto, mais do que questionar o colega por ter agido sem aval, o Itamaraty aponta, internamente, outros culpados. O primeiro trabalha do outro lado da Esplanada dos Ministérios: a presidente Dilma Rousseff, que tem uma relação ruim com a diplomacia e decidiu conceder o asilo ao senador, contrariando um parecer do próprio Itamaraty. Depois, o esqueceu dentro da embaixada.

Contrariados. Hoje, Dilma culpa o então embaixador na Bolívia, Marcelo Biato, por ter aceitado a entrada do senador e ter apresentado o caso a ela com um fato consumado. À época, o parecer do Itamaraty era de que o asilo era necessário porque Pinto Molina era acusado de crimes comuns.

Ainda assim, o Planalto optou por conceder asilo diplomático. Nove meses depois, porém, em viagem à Guiné Equatorial, quando se preparava para uma reunião com o presidente Evo Morales, Dilma perguntou a seu então chanceler: "Quem decidiu dar esse asilo?" Sem usar o peso de maior país da região na negociação, o Brasil deixou o assunto morrer.

Dilma também é responsável por ter incluído o nome de Saboia em uma nota divulgada pelo Itamaraty no dia da fuga do senador, transformando o diplomata em alvo público. Em um ministério acostumado a lavar sua roupa suja internamente sempre de maneira bastante discreta, a nota desagradou todos os lados.

Outro alvo do desgosto dos diplomatas está dentro do próprio Itamaraty. O subsecretário-geral para América do Sul, embaixador Antonio Simões, seria o responsável pelos e-mails pelos quais Saboia alega ter sido instruído a empurrar o caso com a barriga - mensagens que ele pediu para serem apresentadas na sindicância para reforçar sua defesa. A defesa de Saboia está sendo conduzida pelo advogado Ophir Cavalcante, ex-presidente da OAB nacional.

Ao novo chanceler, Luiz Alberto Figueiredo, caberá o papel de bombeiro. Mais do que fazer grandes mudanças na política externa, ele terá de ajudar o próprio Itamaraty a se refazer e reabrir a ponte com o Palácio do Planalto.

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