'Já vimos mudanças nas relações EUA-Cuba'

Amigo pessoal do casal Clinton, o ex-chefe de gabinete acredita que Bill será um marido 'elegante' se Hillary for presidente

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h02

É pouco provável que o Congresso americano revogue o embargo econômico contra Cuba antes do fim do mandato do presidente Barack Obama, avalia Thomas McLarty III, que era enviado do então presidente Bill Clinton para as Américas quando as sanções foram ampliadas e codificadas em lei. "Isso não significa que passos positivos não possam ser dados. Mas, agora, Cuba tem de responder", disse em entrevista ao Estado. McLarty acompanhou de perto a crise que levou os parlamentares americanos a apertarem o cerco à ilha, depois que a Força Aérea cubana derrubou dois aviões civis dos Irmãos para o Resgate, grupo de exilados dissidentes da Flórida. Primeiro chefe de gabinete de Clinton, ele evita qualificar a expansão do embargo como um erro. Amigo do casal Clinton há quase 40 anos, McLarty afirmou que Bill será um marido "elegante", caso Hillary decida disputar a presidência dos EUA e saia vencedora das eleições de 2016. A seguir, trechos da entrevista com o empresário, que nasceu em Hope, no Arkansas, há 68 anos e foi colega de Bill Clinton no jardim de infância.

Como foi a negociação com Gabriel García Marquez quando ele mediou conversas entre EUA e Cuba?

Foi fascinante. Cada governo teve uma fascinação com Cuba. O presidente Clinton tinha interesse nas relações entre os Estados Unidos e Cuba, mas estava ciente do que era possível. Não era uma alta prioridade, como eram a economia e outras agendas de política externa. Mas estávamos dando pequenos passos, não para normalizar as relações, mas para termos uma situação mais viável. O governo cubano era um interlocutor muito bom em questões relacionadas ao tráfico de drogas e à segurança. Provavelmente, continuaríamos a avançar se não tivesse ocorrido a derrubada dos aviões dos Irmãos para o Resgate. Isso mudou tudo de maneira imediata e houve uma reação esmagadora, que levou à aprovação da Lei Helms-Burton. Gabriel García Márquez era muito amigo de Fidel Castro e decidiu ser um emissário não oficial (nos contatos com os EUA). Fui muito cuidadoso, porque isso ocorreu depois da derrubada dos aviões. Recebi-o na Casa Branca, ao lado de pessoas do Conselho de Segurança Nacional. O presidente tivera um encontro com ele nos Hamptons, em 1994. Na nossa reunião, García Marquez falou de um potencial plano terrorista com o qual os cubanos estavam preocupados, tanto em Cuba quanto nos EUA. Essa era a razão do encontro, mas a discussão foi mais ampla. Ele esperava que o presidente Clinton considerasse alguma forma de diálogo e disse que Castro estava aberto a isso. Foi um encorajamento para o nosso governo renovar de maneira cuidadosa interações limitadas com o governo cubano, nas áreas de tráfico de drogas e segurança. Naquele período, nós vimos o aumento do interesse de grupos religiosos, empresariais e outros de ter melhores relações com Cuba.

Foi um erro aprovar a lei que regulamentou o embargo?

Reluto em dizer que foi um erro. Houve um incidente trágico, que resultou na perda de vidas. Era compreensível que houvesse uma resposta. Podemos questionar sua severidade, já que a lei foi bastante definitiva. Mas se Cuba responder à iniciativa do presidente Obama, nós veremos uma evolução natural de Cuba se abrindo para os EUA e vice-versa. Se eles não responderem e continuarmos a ver opressão e falta de reconhecimento da sociedade civil, provavelmente veremos o oposto. Será necessário algum tempo para o Congresso chegar ao ponto de revogar (a lei) Helms-Burton, mas já vimos uma mudança dramática nas relações entre Cuba e os EUA.

Há chance de ser revogado na administração Obama?

Não, seria muito rápido. Isso não significa que passos positivos não possam ser dados. Mas agora Cuba tem de responder. Nossos parceiros latinos, incluindo o Brasil, precisam tomar a iniciativa e dizer: "Defendemos os direitos humanos, defendemos a sociedade civil, defendemos o Estado de Direito". Essa mensagem precisa ser dada de maneira muito clara. Dilma (Rousseff) foi prisioneira política e, na Colômbia, o presidente (Juan Manuel) Santos tem o desafio da guerrilha.

Quão longe Clinton queria ir com Cuba?

Nosso período era muito diferente do atual. Acho que o instinto do presidente era dar pequenos passos. Aquele não era o momento certo para uma mudança. Na região, vimos economias e democracias emergirem e essa foi a essência da Cúpula das Américas, em 1994, que isolou Cuba. Isso refletia a realidade daquele momento. Os líderes da América do Sul estavam preocupados em desenvolver mercados mais abertos, ser mais ativos no palco mundial e ter mais comércio, mais investimentos, mais direitos humanos.

Qual o impacto da retomada das relações sobre a Cúpula das Américas marcada para abril?

(A participação de Cuba) dá à cúpula a oportunidade de ser um encontro muito mais sério. Em Cartagena, há um ano, a questão de Cuba era uma distração da agenda. Estamos unidos pela geografia. O mundo está claramente mudando e há a necessidade de integrar as economias. A maioria dos países da região está comprometida com a democracia, a sociedade civil e o estado de direito. Temos muito sobre o que falar. Com a emergência da Ásia, cometeremos um erro se não encontrarmos maneiras de colaborar, de trabalharmos juntos e de buscarmos um terreno comum. Mas não podemos fazer as coisas ocorrerem sem uma relação pessoal entre os líderes e um sentimento de entendimento e confiança.

Parece haver um déficit de relação entre Brasil e EUA, depois do escândalo da NSA. E na Venezuela, Bolívia e Equador há um intenso antiamericanismo.

Há certos países que têm sentimentos menos favoráveis em relação aos EUA e vice-versa. A situação na Venezuela é trágica. Mas ao mesmo tempo há muitos países que estão no caminho de fortalecer suas democracias e suas economias. O Brasil e os EUA não poderão realizar o seu potencial sem uma relação mais séria e robusta. Nós teremos nossas diferenças em certas questões, mas temos muito mais coisas que nos unem do que nos separam.

O sr. escreveu um artigo no Wall Street Journal defendendo que os últimos anos de mandato presidencial nos EUA podem ser mais produtivos do que a imagem do "pato manco" faz supor.

Tenho uma dose de otimismo e realismo. Você tem de lembrar que nasci em Hope (que significa esperança, em inglês), no Arkansas. Se olharmos a história, os presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton conseguiram fazer coisas importantes nos seus últimos anos de mandato. E Reagan teve a controvérsia do Irã-Contras e o presidente Clinton teve um impeachment. Naquele último ano de Clinton, muitas coisas foram conquistadas, incluindo o Plano Colômbia e a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Em ambos os casos, com apoio bipartidário. Eu diria que patos mancos podem voar.

Em que áreas Obama ainda "pode voar"?

A principal delas é o comércio, com aprovação da Autoridade de Promoção Comercial (TPA, na sigla em inglês) e do acordo de livre comércio Parceria Trans-Pacífico (TPP). Outra área são gastos em infraestrutura, necessários para o país ser mais competitivo. Em questões de política externa, todos estão preocupados com o Isil (sigla pela qual o Estado Islâmico é conhecido). Mas não sou otimista em relação à reforma tributária e à imigração. Essa não é uma questão que será tratada em lei agora. Talvez haja uma esperança em 2016 com o novo presidente.

Na América Latina, existe a percepção de que os EUA não dão atenção à região.

Esse sentimento existe há muito tempo. Eu entendo, mas diria que é o contrário. Nos anos Clinton, nós criamos a Cúpula das Américas e o presidente tinha uma relação pessoal única com muitos líderes na região, incluindo Fernando Henrique Cardoso. Como enviado especial para as Américas viajei 52 vezes para a região em um período de dois anos e meio. É um comprometimento forte.

Bill Clinton está pronto para ser marido de uma presidente dos Estados Unidos?

(Risos) Sim. Seria algo histórico em nosso país ter a primeira mulher presidente. Ainda não quebramos essa barreira, como o Brasil, o Chile e muitos outros países. Hillary tem a oportunidade de ser a primeira mulher presidente, se ela decidir se candidatar. Posso dizer, com base em minha amizade de quase 40 anos com os Clinton, que eles têm tremendo amor e respeito mútuo e que o presidente Clinton será seu maior torcedor, fã e apoiador. Acredito que o presidente Clinton sabe que só pode haver um presidente por vez, mas ele estará disponível para dar suas opiniões, como todas as primeiras-damas deram suas opiniões aos presidentes em exercício e têm sido poderosas. Nunca houve uma primeira-dama que não tenha influenciado o presidente em exercício. O marido tem o mesmo direito de influenciar a presidente, se ela é uma mulher. Mas ele respeitará a presidência. Hillary é uma líder forte, decidida e autoconfiante. Se eleita, será a presidente dos EUA. O presidente Clinton será muito elegante na arena mundial e dará grande apoio a ela.

Qual seria a principal diferença entre o presidente Bill Clinton e uma presidente Hillary Clinton?

Cada presidente é diferente porque as circunstâncias são diferentes. Os problemas e oportunidades que uma presidente Hillary confrontará em 2016 serão diferentes das questões que o presidente Clinton enfrentou em 1992. As duas determinantes pelas quais a história julga qualquer presidência são paz - e depois do 11 de Setembro eu diria segurança, não apenas paz - e prosperidade.

Quando nós saberemos se ela será candidata?

Se eu soubesse, eu não diria. Mas não sei. Será curioso ver uma disputa entre os sobrenomes Clinton e Bush. Será um momento incomum em nossa democracia se Jeb Bush conseguir a nomeação e se Hillary se candidatar.

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