Jacques Chirac, a vida e a morte de um estadista

Jacques Chirac, a vida e a morte de um estadista

Ex-presidente da França morreu aos 86 anos, deixando sua marca pessoal na política francesa

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 06h00

Os fãs podiam amar seu charme, inteligência e cordialidade – ao contrário da maioria dos políticos franceses, ele gostava de conversar com os eleitores, de preferência tomando uma cerveja em um despretensioso bar com telhado de zinco. Ele também teve sucesso: prefeito de Paris, duas vezes primeiro-ministro e presidente de 1995 a 2007. Mas o cinismo foi a marca registrada de Jacques Chirac, que morreu aos 86 anos, no dia 26.

No exterior, ele parecia preferir os ditadores aos democratas. Ele disse aos homens fortes africanos para não se preocuparem com eleições. Vendeu um reator nuclear para o Iraque de Saddam Hussein. Falava russo (quando estudante, traduziu Eugene Onegin, de Pushkin), orgulhosamente incluiu Vladimir Putin como um amigo e detestava os “malcriados” europeus do leste com suas conversas sobre elevados padrões morais e perspectivas de cooperação com os países da América do Norte.

Onde outros tinham princípios, ele tinha espinhos. Um orgulhoso defensor da língua francesa, Chirac saiu de uma reunião de cúpula quando um empresário francês se atreveu a usar o inglês – ele também disse, apenas de brincadeira, que a cozinha deplorável da Grã-Bretanha tornava o país “inerentemente não confiável”. 

Apesar de ter um feliz verão como estudante em Harvard, ele se sentia ofendido pelas maneiras arrogantes dos Estados Unidos, defendendo sempre um “mundo multipolar” como uma maneira de conter seu domínio no pós-guerra. Igualmente, ele criou a France 24 para rivalizar com o “imperialismo anglo-saxão” da BBC e da CNN.

Em casa, Chirac era melhor em campanha do que no governo. Seus anos no poder legaram à França um grande desemprego, deterioração das finanças públicas e divisões sociais mais profundas. Seu povo desiludido perdeu a fé tanto no ideal europeu quanto em grande parte em sua própria classe governante – e não menos importante, nele próprio. 

Chirac obteve um segundo mandato por um golpe de sorte: a virada no primeiro turno fez com que seu oponente fosse o líder de extrema direita, Jean-Marie Le Pen. O establishment político se uniu contra a demagogia, em meio a slogans cáusticos como “Vote no vigarista, não no fascista”. No final de sua segunda presidência, Chirac foi considerado o líder mais impopular da Quinta República – embora François Hollande, mais tarde, batesse esse deplorável recorde.

Foi fácil ver o porquê. O país sofria do que ele mesmo admitia ser um “profundo mal-estar”, atuando apenas como um humilhante segundo violino ante uma Alemanha ressurgente na política europeia. Seu ponto mais baixo veio quando ele ficou quieto por uma semana, enquanto tumultos, de forma chocante, tomavam conta das grandes cidades, em 2005. 

Chirac era propenso à petulância e grosseria em reuniões oficiais, guardava rancores gigantescos e fazia algumas apostas ruins, incluindo convocar eleições parlamentares, em 1997, que a oposição socialista venceu com facilidade.

Grande parte de sua energia foi dedicada a esquivar-se de questões impertinentes, que eram muitas. Em seus 18 anos de carreira em Paris, ele inchou a folha de pagamentos da cidade, principalmente com empregos para funcionários do partido. Ele deu festas enormes e luxuosas para seus apoiadores, enquanto personalidades culturais e outros amigos influentes ganharam elegantes apartamentos.

Os problemas da França aumentaram com ele. Mesmo os mais entediados não conseguiram ignorar as histórias de pacotes de dinheiro, contas bancárias no exterior e obscuras transações. Um dos quebra-cabeças era o Japão: um entusiasmado fã do país, Chirac fez dezenas de viagens particulares para lá. Ninguém sabia o porquê. Um filho? Uma amante? Talvez ambos? Ou vários? 

As indiscrições eram escandalosas. Quando a princesa Diana morreu em Paris, em razão de um acidente, sua sofredora esposa Bernadette apareceu sozinha no necrotério. O presidente não estava em lugar algum. Seu motorista escreveu um livro detalhando escabrosamente a energética vida particular de Chirac, pelo qual ele foi apelidado de “Três minutos, chuveiro incluído”.

Ele descaradamente não se incomodava com isso. Seu brinde favorito era: “Vamos beber para nossas mulheres, nossos cavalos e aqueles que os montam”. Na maioria de suas transgressões, leais tenentes assumiam a culpa. Os promotores de justiça deram apenas um golpe tardio: em 2011, ele foi condenado por má conduta no cargo, com uma sentença suspensa de dois anos – ele se recusou a depor, alegando perda de memória.

No entanto, assim que Chirac deixou o poder, os franceses começaram a sentir falta dele. Ele despertou a fúria americana ao ameaçar usar o veto francês no Conselho de Segurança da ONU para bloquear uma resolução autorizando o uso da força no Iraque. Isso dividiu a União Europeia e prejudicou o Ocidente. Mas pareceu corajoso e presciente mais tarde. Comparado com seu ousado sucessor, Nicolas Sarkozy, ele parecia um modelo de refinamento. Em 2010, ele já era de novo a figura pública mais admirada da França. Seus últimos anos revelaram uma grande força de vontade e talento político, que lhe renderam o apelido de “Trator”, um líder que solucionava problemas. 

Chirac também podia encantar. Em 1968, negociou uma trégua com os líderes dos protestos que levaram a França à beira do caos. Ao contrário das gerações anteriores de figuras públicas, ele se manteve pessoalmente intocado pelas controvérsias da 2.ª Guerra.

Talvez graças a isso tenha cutucado uma histórica polêmica. Em um discurso notável, em 1995, apenas dois meses após a posse, ele encerrou décadas de negação de culpa, aceitando que a França – e não apenas o regime de Vichy – tinha responsabilidade moral pela deportação nazista de 76 mil judeus, a maioria dos quais pereceu. Em comentários que parecem pouco comuns agora, ele disse que “a pátria do iluminismo cometeu o irreparável”. Ele deixou a França com muitos fardos. Mas não aquele. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.