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Jacques Chirac, um estadista

Ele foi, depois de Charles de Gaulle, o último presidente francês de estatura internacional

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 06h00

Jacques Chirac está morto. Morreu ontem, aos 86 anos. Ele foi, depois de Charles de Gaulle, o último presidente francês de estatura internacional. Permaneceu até o final como um provinciano do Maciço Central, mas era um cidadão do mundo. Se foi a Tóquio ou Toronto, Londres ou Gaza, em todos os lugares estava à vontade e foi recebido como amigo, como irmão.

Há dez anos, não o víamos mais. Esse gigante de 1,88m havia se tornado surdo. Então, sua linguagem e as funções intelectuais desapareceram. Ele fez uma despedida engraçada em 2007. Ele estava saindo de uma cerimônia, mas voltou para o carro, sem ar. O carro arrancou. O vidro abaixou e uma mão saiu, tremendo um pouco, como se despedisse da família em uma estação de trem – a sua última estação. Não o vimos novamente. 

Chirac foi duas vezes presidente, primeiro-ministro, ministro frequentemente, prefeito de Paris. Sim, 40 anos em sua companhia e cada um de nós tem lembranças. As pessoas estão chorando. Seus raros inimigos o criticaram por sua versatilidade. Na política, ele mudou de partido como de camisa. Ideologia não era seu forte. Com 20 anos, era próximo dos comunistas, mas qualquer intelectual um pouco nobre, no final da guerra, era comunista. 

Mas esse diletantismo quase dândi, a leveza, a peregrinação entre as famílias políticas não o impediram, nas grandes circunstâncias, de mostrar energia e coragem. Tal força, o mundo pode medi-la naquele dia de 2003, quando George W. Bush formou uma coalizão encarregada de punir Saddam Hussein. O premiê de Chirac, Dominique de Villepin, fez na ONU um discurso admirável para explicar que a França não se uniria a essa desastrosa ação irrefletida, uma guerra estúpida e injusta. Chirac tinha o olhar de uma águia que viu o que ainda estava invisível.

Na política doméstica, a mesma habilidade na calmaria e a patada de um animal selvagem, se necessário. Quando foi o premiê de Giscard d’Estaing, não hesitou em renunciar no dia em que desaprovou o presidente. Nesse caso, o homem tão pacífico parecia um “cavaleiro teutônico” em sua malha de aço.

Casado com uma jovem nobre, era neto de um professor de escola rural, muito amoroso, mas muito infiel. Se colocarmos em fila as lembranças de seus parentes, descobriremos um grupo de damas, rapidamente amadas e rapidamente abandonadas. Houve uma época em que ele até alugou um apartamento perto do Eliseu. Sua mulher ficou desgostosa, mas se resignou. Foi por ela que ficamos sabendo que ele tinha um relacionamento caloroso com a atriz Claudia Cardinale

Ele tinha uma característica que nem sempre é encontrada nos políticos franceses: o humor, o prazer pelas provocações e histórias curtas, muitas vezes ditas em linguagem de estudante ou “de quartel”. Um dia em Londres, durante uma discussão com Margaret Thatcher, ouvimos a voz de Chirac, que havia esquecido de desligar o microfone: “Mas o que quer a velha? Minhas bolas em uma bandeja?” E essa expressão, que ele usava quando estava com problemas: “Os problemas voam em esquadrilhas”.

Suas últimas palavras, segundo seu motorista fiel, 18 anos a seu serviço: “Ele era surdo, estava em uma cadeira de rodas. Toda noite, eu entrava no quarto e lhe dizia: ‘A noite cai’. E sempre ele respondia: ‘Espero que ela não tenha se machucado muito’”. É isso que gostaríamos de dizer ao ouvir sobre a morte de Chirac: “Espero, senhor presidente, que o senhor não tenha sentido”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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