Jamais houve época melhor para ser ditador

A Coreia do Norte trata brutalmente seus cidadãos, mas o acobertamento de outras autocracias é mais assustador

Joshua Keating*, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2014 | 02h06

Um relatório das Nações Unidas sobre violações de direitos humanos na Coreia do Norte publicado na semana passada compara as condições no país às atrocidades da Alemanha nazista e relata crimes contra a humanidade cometidos dentro dos vastos campos de trabalho do país, incluindo "fome, abortos forçados, abusos, tortura e extermínio sistemáticos".

O grupo recomenda que os líderes norte-coreanos sejam levados ao Tribunal Penal Internacional, mas como a China, aliada dos norte-coreanos tem direito de veto no Conselho de Segurança, isso é extremamente improvável.

Jonathan Friedland, do The Guardian, observa que é improvável qualquer ação a respeito por parte da comunidade internacional em resposta ao relatório, com notícias similarmente assustadoras da Síria, e afirma que com China e Rússia interferindo a favor dos seus aliados autocráticos e as sociedades americana e europeia extremamente cautelosas no tocante a uma intervenção militar, temos "uma boa época para um ditador, um carrasco ou um líder torturador de um regime brutal". O mundo permitirá que ele cometa assassinatos, mesmo quando sabe exatamente o que ocorre.

Esse é um ponto que vale a pena analisar durante a Olimpíada que acabou ontem em um país que vem cometendo graves abusos de direitos humanos internamente e incitando crimes muito piores no exterior. Este é um mês excepcional para a impunidade ditatorial.

A Coreia do Norte, porém, pode não ser o exemplo mais útil no caso. O país não se coaduna absolutamente com o mundo moderno, é um país brutal no tratamento dos seus cidadãos e em geral não se preocupa em ter uma respeitabilidade internacional. Chega até a provocar diretamente seu patrocinador internacional mais importante. Muitos países, mesmo aqueles onde imperam ditaduras brutais, provavelmente não olham para o isolamento internacional da Coreia do Norte e acham que ela é um modelo a seguir.

Mesmo Bashar Assad, embora se mostre mais do que disposto a jogar barris repletos de pregos e rebarbas de aço contra seu próprio povo para manter seu controle do poder, provavelmente preferiria muito mais degustar canapés em Davos falando sobre o crescimento econômico do seu país com os mais respeitáveis autocratas da região.

Um exemplo ainda melhor de autocrata tranquilo é Yoweri Museveni, de Uganda, no poder desde 1986. Uganda certamente não está, nem mesmo remotamente, perto da Coreia do Norte no quesito direitos humanos. Mas como Sam Sturgis, da McClatchy, escreveu, é totalmente improvável que os EUA pressionem os governos do país no caso das novas leis contra gays e lésbicas e a presença inoportuna de suas tropas no Sul do Sudão. Sem mencionar as medidas adotadas reprimindo a liberdade de expressão e as eleições fraudadas - graças aos acordos de segurança firmados entre os dois países.

"A partir dos anos 90 os Estados Unidos ajudaram a criar a Força de Defesa da População de Uganda, de Museveni, cuja finalidade seria colaborar para a solução de situações difíceis na África Central e Oriental", escreveu Sturgis. As colaborações prestadas no passado incluem operações contra o grupo terrorista Al-Shabab na Somália e a caça a Joseph Kony.

Novamente, as condições não são de maneira nenhuma equivalentes, mas os Musevenis do mundo - cada vez mais autocráticos, mas estrategicamente úteis para as superpotências globais - podem ser exemplos melhores de como ser um ditador no mundo atual do que os Kim Jong-uns.

*Joshua Keating é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.