Jantar de Estado, uma área perigosa do protocolo

A Casa Branca de Obama tenta dar a Hu uma recepção cuja pompa é reservada a grandes[br]aliados, mas ele deve se esforçar para não parecer muito íntimo do líder chinês

Sheryl Gay Stolberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Havia mais de 13 anos que um presidente chinês não era convidado de honra da mais suntuosa festa dada pela Casa Branca, que é o jantar de Estado. Como anfitrião de Hu Jintao, Barack Obama entrou numa zona perigosa do protocolo e da diplomacia internacionais.

Visitas de líderes chineses com frequência transformaram-se em pesadelos em termos de protocolo. Quando o presidente Hu visitou George W. Bush, em 2006, um seguidor da seita Falun Gong interrompeu a cerimônia de chegada do presidente chinês à Casa Brancal, causando um grande embaraço para Washington, ampliado quando o apresentador erroneamente confundiu o nome oficial da China com o de Taiwan, ilha que os chineses reivindicam como parte do seu território.

Quando o presidente Bill Clinton recebeu o presidente Jiang Zemin para um jantar de Estado, em 1997, o governo viu-se às voltas com exigências dos chineses. A Casa Branca de Clinton propôs instalar uma enorme tenda no Gramado Sul da Casa Branca, para abrigar 400 convidados. A equipe de Jiang insistiu numa cerimônia mais íntima no Salão Leste, como quando o presidente Jimmy Carter recebeu Deng Xiaoping.

Talvez consciente dessa história complicada, a Casa Branca de Obama manteve segredo sobre os detalhes do jantar de ontem. As autoridades recusaram-se a falar sobre o cardápio ou os convidados. Mas alguns detalhes foram vazados: o ator Jackie Chan estaria presente, mas o presidente da Câmara, John Boehner, recusou o convite (assessores disseram que ele não gosta de jantares formais).

Obama planejou usar o jantar para fortalecer os laços com a China, um poder cada vez mais sólido na Ásia, apesar de as autoridades americanas admitirem que os dois países não estão de acordo em vários assuntos, como comércio, política monetária e direitos humanos.

Mas o histórico da China no campo dos direitos humanos já provocou questionamentos quanto a se Obama deveria receber Hu com a pompa normalmente reservada a aliados que compartilham as mesmas ideias. O Prêmio Nobel da Paz de 2010, Lu Xiaobo, é prisioneiro político na China. E Obama recebeu esse mesmo prêmio em 2009.

"É uma situação em que um laureado com o Nobel da Paz oferece um banquete a um líder que mantém na prisão um outro Prêmio Nobel", disse Michael Green, ex-conselheiro de Bush para assuntos asiáticos, que ajudou a planejar a última visita de Hu ao país. Mas os funcionários da Casa Branca defenderam a decisão de realizar o jantar. "É um jantar de boas-vindas tradicional para uma visita de Estado muito importante do ponto de vista das relações bilaterais", alegou Tommy Vietor, porta-voz de Obama.

Bush, por exemplo, irritou Hu quando se recusou a lhe oferecer um jantar de Estado; ele não quis conceder essa honra a um líder que não foi democraticamente eleito. A Casa Branca de Bush tentou contrabalançar as coisas, oferecendo locais alternativos para sua reunião, incluindo a residência de descanso do presidente em Camp David. Mas os chineses consideraram o local pequeno e disseram que Hu não estava tendo o mesmo respeito dado a seu predecessor Jiang Zemin por Clinton.

A Casa Branca está estendendo o proverbial tapete vermelho para Hu. Mas o presidente Obama deverá se esforçar para não parecer muito íntimo do líder chinês. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.