EFE
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Japão encerra ciclo de 54 anos de governo liberal-democrata

Partido do premiê Taro Aso sofre derrota nas eleições legislativas deste domingo após meio século de poder

Cláudia Trevisan, enviada especial de O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2009 | 19h27

Os japoneses colocaram fim neste domingo a 54 anos quase ininterruptos de governo do Partido Liberal Democrata (PLD), em meio à mais grave crise do pós-guerra e à redução da projeção internacional de seu país, que em breve perderá o posto de segunda maior economia do mundo para a vizinha China.

 

Os eleitores deram uma vitória avassaladora ao Partido Democrático do Japão (PDJ), que deverá ter pelo menos 300 das 480 cadeiras da Câmara Baixa. Se obtiver 321, o PDJ terá a possibilidade de aprovar leis sem necessidade de coligação com outras legendas, algo que nem o governo atual possui.

 

Pouco mais de duas horas depois do encerramento da votação, o primeiro-ministro Taro Aso reconheceu a derrota e anunciou sua renúncia da presidência do PLD. O número de parlamentares de seu partido vai despencar dos atuais 302 para algo em torno de 100.

 

O Parlamento eleito terá 30 dias para realizar sua primeira sessão, na qual será eleito o novo chefe de governo do Japão. A menos que aconteça algo inesperado, o cargo será ocupado por Yukio Hatoyama, 62, político que tem retórica reformista, mas é dono de uma trajetória ligada ao mesmo establishment que derrotou nas urnas.

 

Neto de um primeiro-ministro que participou da fundação do PLD, Hatoyama pertenceu ao partido até 1993, quando passou para a oposição. Cinco anos mais tarde, ele participou da fundação do PDJ, que agora chega ao poder. Seu pai foi ministro das Relações Exteriores do PLD e seu irmão é deputado pelo mesmo partido.

 

Diante da maior taxa de desemprego desde o fim da Segunda Guerra Mundial e um crescente sentimento de insegurança em relação ao futuro, os japoneses foram seduzidos pelas promessas dos democratas de reforçar a rede de proteção social do país.

 

A definição do papel do Estado na economia e na vida dos cidadãos é o principal elemento que diferencia os liberais dos democratas. A legenda vencedora defende o pagamento de generosos benefícios sociais e promete acabar com a cobrança de pedágios nas rodovias japonesas.

 

Hatoyama e seus seguidores afirmam que o aumento de dinheiro no bolso dos cidadãos é a maneira mais eficaz de estimular a atividade econômica, enquanto o derrotado PLD é favorável à concessão de estímulos para as empresas.

 

Mais do que votar a favor do PDJ, os eleitores votaram contra a permanência no poder do PLD, visto cada vez mais como aliado das grandes corporações e da poderosa burocracia japonesa.

 

"Nós vivemos em uma espécie de ditadura política de partido único. O Japão precisa de mudança e de alternância no poder", disse Taku, 36, depois de votar no bairro de Chiyoda -- os entrevistados japoneses costumam se identificar apenas com o primeiro nome.

 

O paralelo com a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos foi explorado à exaustão por Hatoyama e seus seguidores, que chegaram a utilizam imagens da campanha do norte-americano em seus anúncios de televisão.

 

"Como na América com Obama, nós precisamos de uma mudança", afirmou a aposentada Mieko, 76, depois de votar no PDJ.

 

Com uma economia extremamente dependente das exportações, o Japão sofreu um baque com a crise financeira internacional, que levou o desemprego a 5,7% em junho, a maior taxa do período pós-guerra.

 

Os contratos de trabalho temporário ou de meio período já correspondem a um terço do total e a rotatividade no emprego é alta entre os jovens, que olham com nostalgia para a segurança desfrutada pelas gerações anteriores, que podiam aspirar ficar em uma única empresa por toda a vida.

 

Além de prometer pagar benefícios sociais, o PDJ defende o restabelecimento dos contratos de trabalho regulares, apontados por muitos analistas como um fator de engessamento do mercado de trabalho no Japão. Se implementada, a mudança pode afetar os quase 300 mil imigrantes brasileiros que estão no país, quase todos contratados em regime temporário.

 

Os eleitores também foram atraídos pelas propostas de reformas políticas apresentadas pelo PDJ, principalmente diante de um PLD que parecia cada vez mais distante do cidadão comum. Os vencedores defendem a radical redução da influência da burocracia do Estado e devolução aos políticos do poder de decisão sobre as políticas públicas.

 

Também propõe medidas para acabar com a natureza hereditária da política japonesa, pela qual os filhos se elegem para suceder os pais em seus distritos eleitorais.

 

A promessa do PDJ de acabar com a suposta aliança entre o PLD, o mundo empresarial e a burocracia atraiu eleitores tanto quanto as propostas econômicas. "Faz muito tempo que o PLD está no poder e eu não gosto mais da maneira como eles fazem política", ressaltou o eleitor Disuke, 60, que sempre votou nos liberais, mas desta vez decidiu dar crédito aos democratas.

 

Os candidatos fizeram campanha até o último momento, com vários comícios realizados em todo o país na noite de sábado. O domingo da eleição foi chuvoso e bem mais frio que o ensolarado dia anterior. Ainda assim, os institutos de pesquisa estimaram que o comparecimento nas urnas superou os 67,5% de 2005 e se aproximou de 70% dos eleitores.

 

 

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