Kyodo News via AP
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Japão enfrentará a China? Visita a Washington pode dar uma pista

Primeiro-ministro Yoshihide Suga é o primeiro líder estrangeiro a ser convidado por Biden para a Casa Branca, onde provavelmente será pressionado a abordar de forma mais direta a ameaça de Pequim à estabilidade na região

Motoko Rich, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 10h00

TÓQUIO - Ao visitar Washington esta semana, parece que o primeiro-ministro Yoshihide Suga, do Japão, poderá comemorar a vitória.

Suga é o primeiro líder estrangeiro a ser convidado para a Casa Branca pelo presidente Joe Biden, que prometeu fortalecer alianças. O Japão já foi destaque no mês passado por ser o primeiro destino internacional dos novos secretários de Estado e defesa dos Estados Unidos. E Suga não terá que lidar com as ameaças de tarifas mais altas ou a necessidade de elogio constante que moviam o predecessor caprichoso de Biden.

Mas, mesmo com as relações entre os dois países estando calmas, o Japão encara um momento perigoso, com os EUA incentivando-o a enfrentar mais diretamente a ameaça mais gritante à estabilidade na Ásia: a China.

É o último passo de uma dança milenar entre os dois países. Desde que os EUA formaram uma aliança com o Japão durante sua ocupação no pós-guerra, Tóquio buscou garantias de proteção por parte de Washington, enquanto Washington incitou Tóquio a fazer mais para garantir sua própria defesa.

Por décadas, durante a Guerra Fria, as ameaças proeminentes pareciam vir da Europa. Agora, enquanto Suga vai para Washington, o Japão enfrenta perigos invasivos em seu próprio quintal.

“Estamos em uma era completamente nova, em que a ameaça se concentra na Ásia e o Japão está na linha de frente dessa ameaça”, disse Jennifer Lind, professora de administração pública na Dartmouth College e especialista em segurança internacional do Leste Asiático.

“A aliança EUA-Japão está em um momento decisivo”, disse Jennifer. “A aliança tem que decidir como queremos responder à crescente ameaça da China e à agenda chinesa para a ordem internacional.”

Analistas e ex-funcionários do governo disseram que é hora de o Japão expandir seu pensamento sobre o que uma reunião com seu aliado mais importante pode conseguir.

No geral, um primeiro-ministro japonês tem uma lista de itens da agenda para dar conta. Esta visita não é diferente. Os dois líderes devem falar a respeito da pandemia do novo coronavírus, comércio, a importância de garantir cadeias de suprimentos para componentes como semicondutores, a ameaça nuclear norte-coreana e objetivos comuns em relação à mudança climática.

“Normalmente, quando um primeiro-ministro japonês vai aos EUA, há uma lista de itens a serem discutidos que lembra uma lista de compras: ‘O que você diria disso, o que poderia nos tranquilizar em relação a isso’”, disse Ichiro Fujisaki, ex-embaixador japonês nos EUA.

Desta vez, ele disse, “não é isso que devemos fazer. Acho que devemos falar muito sobre o mundo e a Ásia-Pacífico”.

Essas declarações ousadas iriam contra os instintos arraigados das autoridades japonesas. Elas tendem a evitar mencionar a China ou seus interesses mais delicados, preferindo uma linguagem vaga e abrangente a respeito da necessidade de manter uma região Indo-Pacífico livre e aberta.

 

Mas como a China tem ignorado repetidamente os esforços diplomáticos ou legais para conter suas ações agressivas nos mares do sul e do leste da China, alguns dizem que o Japão precisa ser mais específico em relação ao que pode fazer no caso de um conflito militar.

 

“Quem não quer liberdade e abertura?”, perguntou Jeffrey Hornung, analista da RAND Corp. “Ao querer essas coisas, você sutilmente ataca a China. Mas o que você vai fazer quando essas coisas que diz que vai defender forem atacadas?"

Os líderes japoneses costumam usar reuniões com presidentes americanos para buscar garantias de que os EUA, que têm cerca de 50 mil soldados posicionados no Japão, defenderiam o direito do país de controlar as ilhas desabitadas de Senkaku. No ano passado, a China, que também reivindica o território, enviou barcos para perto das águas territoriais do Japão ao redor das ilhas com frequência crescente.

Talvez o maior risco de conflito, porém, seja no Estreito de Taiwan, para onde a China tem enviado aviões de guerra com o intuito de ameaçar a ilha democrática, que Pequim considera um território fora da lei. Quando o secretário de Defesa Lloyd Austin e o secretário de Estado Antony Blinken visitaram Tóquio no mês passado, eles e seus colegas japoneses emitiram uma declaração enfatizando “a importância da paz e da estabilidade no Estreito de Taiwan”.

Espera-se que Biden e Suga discutam não apenas as ações militares da China, mas também seu histórico em relação aos direitos humanos, assim como o golpe em Mianmar - prováveis áreas de divergência entre os líderes.

O governo Biden chamou a repressão chinesa aos muçulmanos uigures na região de Xinjiang de genocídio e impôs sanções às autoridades chinesas. Também impôs sanções aos generais militares em Mianmar. Mas o Japão tende a ser mais cauteloso ao abordar os direitos humanos ou tomar ações diretas, como sanções econômicas.

Tobias Harris, um especialista em política japonesa da Teneo Intelligence em Washington, disse que o governo Suga abordou os direitos humanos apenas “retoricamente”.

“Quando você realmente olha o que eles estão fazendo”, afirmou, “estão tentando manter as opções em aberto”.

Para o Japão, que realiza vasto comércio com a China e tem investimentos em Mianmar, há um claro temor de reação e um entendimento de que Pequim pode fechar a torneira a qualquer momento.

Suga talvez espere que uma viagem frutífera a Washington melhore sua situação em casa, onde é politicamente vulnerável. O público japonês está insatisfeito com a gestão da pandemia de seu governo e com a administração lenta da vacina (embora Suga tenha sido liberado para viajar depois de ser vacinado), e a maioria se opõe à decisão de sediar os Jogos Olímpicos neste verão.

O sucesso da viagem pode depender em parte de Suga desenvolver um relacionamento de confiança mútua com Biden. Analistas experientes do Japão estarão acompanhando de perto Suga, que não é conhecido por seu carisma, especialmente depois que seu antecessor, Shinzo Abe, ter gasto tempo e esforço consideráveis cortejando o predecessor de Biden.

“Temos dois políticos mais velhos e muito tradicionais em muitos aspectos”, disse Kristin Vekasi, professora de ciência política na Universidade do Maine. “Ficarei curiosa para ver o que eles vão fazer.” /Tradução de Romina Cácia

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