Japão tenta religar eletricidade de usina nuclear

Engenheiros japoneses admitiram na sexta-feira que enterrar debaixo de areia e concreto uma usina nuclear danificada pode ser o último recurso para evitar uma liberação catastrófica de radiação. Foi o método empregado em Chernobyl em 1986 para selar vazamentos enormes.

SHINICHI SAOSHIRO E YOKO NISHIKAWA, REUTERS

18 de março de 2011 | 13h57

Mas eles ainda tinham a esperança de resolver a crise, conectando um cabo elétrico a dois reatores até o sábado para religar as bombas de água necessárias para resfriar os bastões de combustível nuclear superaquecidos. Trabalhadores também regaram com água o reator 3, o mais crítico dos seis reatores da usina.

Foi a primeira vez em que a empresa que opera a usina reconheceu que seria possível enterrar o grande complexo erguido há 40 anos --um sinal de que medidas isoladas, como atirar água de helicópteros militares sobre o reator ou esforçar-se para religar as bombas de resfriamento, podem não funcionar.

"Não seria impossível encerrar os reatores em uma capa de concreto. Mas nossa prioridade neste momento é tentar primeiro resfriá-los", disse em coletiva de imprensa um funcionário da empresa Tokyo Electric Power Co., que opera a usina.

Enquanto uma semana se completava desde que um terremoto de 9,0 graus e um tsunami de dez metros de altura achataram cidades costeiras e mataram milhares de pessoas, a pior crise nuclear mundial desde Chernobyl e as piores crises humanitárias do Japão desde a Segunda Guerra Mundial pareciam estar longe de encerradas.

Os mortos confirmados pelo terremoto e o tsunami já são cerca de 6.500, e ainda há 10.300 desaparecidos; teme-se que muitos destes estejam mortos.

Cerca de 390 mil pessoas, entre as quais muitos idosos, estão desabrigadas e enfrentam temperaturas de quase 0 grau Celsius em abrigos improvisados nas áreas costeiras do norte do país. Faltam comida, água, medicamentos e combustível para aquecimento.

O governo assinalou que poderia ter sido mais ágil no enfrentamento dos desastres múltiplos.

"Um terremoto e um tsunami de dimensões sem precedentes atingiram o Japão. Em consequência disso, aconteceram coisas que não tinham sido previstas em matéria da reação geral ao desastre", disse em coletiva de imprensa o secretário chefe do gabinete, Yukio Edano.

O Japão elevou a classificação de gravidade da crise nuclear do nível 4 para o nível 5 na escala internacional INES, que tem sete níveis, equiparando-o ao acidente ocorrido na usina nuclear de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, embora alguns especialistas considerem que é mais grave que este.

Chernobyl chegou ao nível 7 na escala INES.

Turistas, estrangeiros e muitos japoneses continuam a deixar Tóquio, temendo uma explosão de material radiativo do complexo nuclear situado 240 quilômetros ao norte, embora as autoridades de saúde e a agência de fiscalização nuclear da ONU tenham dito que os níveis de radiação na capital não são prejudiciais à saúde.

Há pouco alívio em vista para cerca de 300 técnicos da usina nuclear que estão trabalhando nos destroços radiativos, usando máscaras, óculos e roupas protetoras especiais com suas costuras fechadas com fita adesiva para impedir a passagem de partículas radiativas.

"Meus olhos se enchem de lágrimas quando penso no trabalho que estão fazendo", disse à Reuters Kazuya Aoki, técnica de segurança da Agência de Segurança Nuclear e Industrial do Japão.

Mesmo que os engenheiros consigam religar o fornecimento de eletricidade à usina Fukushima Daiichi, é possível que as bombas tenham sido muito danificadas pelo terremoto, o tsunami e as explosões subsequentes para conseguirem funcionar.

O primeiro passo será levar a eletricidade às bombas dos reatores 1 e 2, e, possivelmente, o reator 4, até sábado, disse Hidehiko Nishiyama, porta-voz da agência de segurança nuclear japonesa.

Até o domingo o governo espera que a eletricidade chegue às bombas do fortemente danificado reator 3 - ponto focal da crise porque emprega óxidos mistos, ou mox, contendo tanto urânio quanto plutônio, este altamente tóxico.

Indagado sobre a possibilidade de os reatores serem soterrados em areia e concreto, Nishiyama respondeu: "Essa solução está presente em nossa consciência, mas por enquanto estamos focados em resfriar os reatores."

Se os reatores forem enterrados, uma parte do Japão terá acesso proibido a pessoas por décadas. "Não é tão fácil assim", disse Murray Jenex, professor da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, quando perguntado sobre a chamada opção Chernobyl de enterrar os reatores.

"Os reatores são um pouco como um aparelho de fazer café. Se você deixa o calor ligado, eles fervem até secar e então racham. Colocar concreto em cima disso não tornaria seu aparelho de café mais seguro. Mas, com o tempo, sim, seria possível construir um escudo de concreto e deixar por isso mesmo."

MUITOS CONTINUAM SEM ELETRICIDADE E ÁGUA

A situação dos desabrigados pelo terremoto e o tsunami se agravou depois de uma onda de frio levar neve pesada às áreas mais afetadas.

O fornecimento de água, óleo para aquecimento e combustível está baixo nos centros de desabrigados, onde muitos sobreviventes aguardam embrulhados em cobertores. Faltam remédios para muitos idosos. A comida é racionada. Funcionários dos serviços de resgate informam que há falta aguda de combustível para seus veículos.

O governo disse na sexta-feira que analisa a possibilidade de transferir alguns dos desabrigados para partes do país não atingidas pela devastação.

Quase 320 mil famílias no norte do país continuavam sem eletricidade na sexta-feira à tarde, sob frio congelante, disseram as autoridades, e, segundo o governo, ainda falta água corrente para pelo menos 1,6 milhão de famílias.

O governo ordenou que todas as pessoas residentes em um raio de 20 quilômetros da usina nuclear danificada abandonem suas casas e aconselhou as pessoas que vivem em um raio de até 30 quilômetros a não saírem de suas casas.

A embaixada dos EUA em Tóquio exortou cidadãos residentes em um raio de 80 quilômetros da usina a deixarem a região ou ficarem dentro de casa "como precaução", e o Ministério do Exterior britânico pediu a seus cidadãos que "estudem a possibilidade de deixar a região". Outros países já pediram a seus cidadãos no Japão que deixem o país ou se desloquem para o sul do país.

(Reportagem adicional de Linda Sieg, Nathan Layne, Elaine Lies, Leika Kihara e Chris Gallagher)

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