Japão vive crise psicológica

A segurança e a previsibilidade, que eram as metas da sociedade, já não estão sendo atingidas

Masaru Tamamoto, The New York Times*, O Estadao de S.Paulo

07 de março de 2009 | 00h00

Eventos recentes marcaram o retorno do Japão à cena mundial. Pelo menos parece. Tóquio foi o primeiro destino da secretária de Estado, Hillary Clinton, em sua viagem ao exterior. O premiê Taro Aso foi o primeiro líder estrangeiro a visitar, na semana passada, a Casa Branca de Obama. O que sugere que, para Washington, o Japão, segunda maior economia do mundo, é uma nação poderosa. Se ao menos pensássemos do mesmo modo! O Japão está numa desordem. O índice de aprovação de Aso é de 11% e seu partido, o Liberal Democrático, e a oposição estão desorientados. Isso porque, em grande parte, nos tornamos um país de burocratas. Aquela que é considerada a política nacional é uma soma de vários interesses ministeriais, frequentemente conflitantes com orçamentos protegidos fervorosamente. Não existe nenhuma justificativa para todos os aeroportos que, na maior parte, não são utilizados. Ou para as estradas que levam a lugar nenhum. Nosso problema é tão profundo que parece, às vezes, que nenhum partido conseguirá domar a burocracia e adotar uma agenda nacional coerente.Mas o que muitas pessoas não admitem é que nossa crise não é política, mas psicológica. Após nossa agressão - e subsequente derrota - na 2ª Guerra, a segurança e a previsibilidade tornaram-se as metas da sociedade. Os burocratas passaram a controlar todos os detalhes da vida cotidiana. Hoje somos uma nação com emprego perpétuo, um sistema corporativo com base em participações cruzadas de ações e uma grande população de classe média constituída de pessoas iguais ou parecidas. Os especialistas conservadores sempre gostaram de tratar essa igualdade como as pedras angulares da tradição "japonesa". Tolice. Durante grande parte da sua história, o Japão teve uma estratificação social e grandes desigualdades em matéria de riqueza e privilégios. O Japão "igualitário" foi uma criação dos anos 70, com a taxação progressiva, redistribuição da riqueza, subsídios e desencorajando a competição por meio de regulamentos. Tudo isso parecia funcionar muito bem até nossa bolha dos preços dos ativos estourar, na década de 90. Hoje, os oprimidos japoneses parecem se satisfazer sabendo que todo mundo à sua volta está igualmente infeliz. Desde meados do século 19, nosso sucesso econômico depende dos modelos externos. Nossa previdência social foi inspirada na da Alemanha de Bismarck, o planejamento estatal foi copiado da União Soviética, a manufatura e montagem de carros têm como base o modelo da Ford. Grande parte da inovação japonesa implicou o aperfeiçoamento do que outros criaram. A Sony é famosa por seu walkman, mas não inventou o gravador.A ascensão do Japão para a lista das grandes economias foi basicamente um jogo para alcançar o Ocidente avançado. E o que ocorreu quando o alcançamos? Nas últimas duas décadas, foi a paralisia. A capacidade do Japão de copiar modelos externos foi confundida com progresso. Mas se progresso for definido como buscar uma noção de um futuro desejável, então os japoneses nunca progrediram. O que sempre tivemos foi um conceito e ordem e enquadramento, o que significa, essencialmente, inatividade.Por outro lado, no Ocidente, a ideia de progresso tem a ver com a autonomia e a liberdade individuais. No Japão, o regime burocrático ofereceu segurança e previsibilidade, em troca da liberdade pessoal. O problema é que nossos atuais líderes políticos não cumprem com sua parte da barganha. A segurança no emprego não pode mais ser garantida.Os planos de saúde e pensão nacionais devem ficar insolventes a longo prazo. As pessoas se sentem inseguras e sem liberdade. Os sinais de desesperança estão por toda a parte. O Japão tem uma das mais altas taxas de suicídio entre os países ricos. Mas, de longe, nosso problema mais sério é o declínio e o envelhecimento da população. Com base nas tendências atuais, a população do país provavelmente vai diminuir de 130 milhões para menos de 90 milhões em cerca de 50 anos. E nesse período, 40% dos japoneses estarão com mais de 65 anos.Se quisermos sobreviver como país, precisamos acabar com nossa enraizada resistência à imigração. Contrariamente à ideia generalizada de que devemos manter um Japão "puro", precisamos desesperadamente diluir nosso sangue. Nosso país em processo de envelhecimento vai necessitar de milhões de imigrantes de classe média, universitários, com grande produtividade, pessoas que criarão raízes no país e constituirão famílias, cujo orgulho e sucesso serão a afirmação dos novos valores japoneses.Temos de parar de copiar modelos externos. Precisamos começar do zero, assumir uma ideia de progresso que se baseie na inovação, ambição e dinamismo. O que exigirá assumir riscos - e uma liderança extraordinária. Mas a alternativa será continuar tropeçando a caminho do declínio. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO *Masaru Tamamoto é membro do World Policy Institute

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