Japonês ex-chefe de segurança da AIEA preocupava EUA--WikiLeaks

Dezoito meses antes da crise nuclear japonesa atual, diplomatas norte-americanos criticaram fortemente o então chefe de segurança da agência de fiscalização nuclear da ONU, especialmente em relação ao setor de energia nuclear em seu próprio país, o Japão.

TOM MILES, REUTERS

17 de março de 2011 | 12h57

Telegramas enviados da embaixada dos EUA em Viena a Washington, obtidos pelo WikiLeaks e vistos pela Reuters, fizeram menção específica a Tomihiro Taniguchi, que foi até o ano passado diretor de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

"Nos últimos dez anos o Departamento tem sido tremendamente prejudicado pela falta de habilidades do (vice-diretor geral) Taniguchi em termos de gestão e liderança", disse um telegrama de 1o de dezembro de 2009.

"Taniguchi vem sendo um administrador e defensor fraco, particularmente com relação ao questionamento das práticas de segurança do Japão, e ele decepciona os Estados Unidos especialmente pelo tratamento de enteado não amado que dá ao Escritório de Segurança Nuclear", diz outro telegrama, este enviado em 7 de julho de 2009.

A AIEA não comenta o teor de telegramas vazados.

As evidências de preocupação com o diretor japonês vieram à tona no momento em que seu país luta para evitar que radiação letal se espalhe a partir de reatores nucleares ao norte de Tóquio que foram danificados no terremoto da sexta-feira passada.

Diplomatas credenciados junto à AIEA disseram que a agência pode exercer um papel apenas muito limitado na segurança nuclear, porque só pode fazer recomendações e fornecer incentivos para que os países adotem melhorias, mas não pode implementar as medidas.

"A agência não é fiscal nesse sentido. Ela encoraja o desenvolvimento e oferece incentivos. Mas a segurança é essencialmente uma questão soberana", disse um diplomata, acrescentando que alguns países membros da AIEA querem que a agência receba mais poderes nesse quesito.

A crise do Japão provocou o escrutínio de suas autoridades nucleares, em especial da operadora dos reatores danificados, que tem um histórico de falsificação de informações em suas usinas.

Telegramas distintos citaram um parlamentar japonês como tendo dito a autoridades norte-americanas em visita ao país em outubro de 2008 que empresas de eletricidade no Japão estariam ocultando problemas de segurança nuclear e que o governo estaria facilitando as coisas para elas em relação à adesão à energia renovável.

Taro Kono, defensor da energia renovável que em 2009 se candidatou sem sucesso à liderança de seu partido, o Liberal Democrático (PLD), disse também que o Japão não tinha solução para a questão do armazenamento de lixo nuclear e perguntou se existia algum lugar apropriado para isso, em vista do fato de o Japão ser "um país de vulcões".

Não foi possível obter declarações imediatas de Kono.

A Tokyo Electric Power Company (Tepco), operadora da usina Fukushima Daiichi, que está ao centro da crise atual, tem um passado irregular em um setor marcado por escândalos.

Cinco executivos da Tepco pediram demissão em 2002 em função da suspeita falsificação de registros de segurança em usinas nucleares, e cinco reatores foram obrigados a cessar suas operações.

Em 2006, o governo ordenou que a Tepco checasse seus dados passados, depois de ter sido relatada a falsificação de temperaturas de água de resfriamento na usina Fukushima Daiichi em 1985 e 1988 e de os dados falsificados terem sido usados em inspeções obrigatórias da usina concluídas em outubro de 2005.

(Reportagem adicional de Sylvia Westall em Viena)

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