Japoneses querem líder que não se meta em confusão

Naoto Kan perde popularidade após um mês como premiê

Jeff Kingston, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, fez muita confusão em apenas um mês no cargo. O país realizou no dia 11 de julho as eleições parlamentares para o Senado, e Kan - que começou seu mandato com um índice de aprovação relativamente bom, 60% - convenceu os eleitores de que suas medidas são tão medíocres quanto as do seu predecessor, Yukio Hatoyama.

O que acontece no Japão é algo superior a Kan, como homem. Depois de uma série de líderes ineficientes, que ocuparam o cargo por breve tempo, muitos perguntam se o país tornou-se ingovernável. Kan é um político astuto, com consideráveis capacidades, e os eleitores parecem gostar de sua mensagem para imprimir um forte impulso à economia. Muitos concordam que a antiga política de enormes gastos com obras públicas e desregulamentação não funcionou. Ao contrário, deixou o país atolado em uma dívida colossal que equivale a 200% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Kan teve um péssimo início quando propôs dobrar o imposto sobre o consumo, de 5% para 10%. Obrigado a detalhar seu plano, recuou e divagou. Pareceu mais perdido do que o seu antecessor, Hatoyama, que provocou a própria queda ao hesitar sobre a retirada da base militar americana de Futenma de Okinawa - entre outras coisas. Os eleitores japoneses buscam um líder determinado nos moldes de Junichiro Koizumi, premiê de 2001 a 2006. Até o momento, Kan parece um inepto a mais.

A crise de liderança não poderia ocorrer em momento mais inoportuno. O governo do Partido Democrático do Japão (PDJ) enfrenta um desemprego de 5,2%, alto pelos padrões japoneses, onde 2% é a taxa costumeira. O PDJ argumenta que o governo canalizará a receita fiscal para programas sociais mais amplos. Os outros dois maiores partidos, o Partido Liberal Democrático (PLD) que dominou a política japonesa por mais de cinco décadas, e o Seu Partido, recém-formado, querem o governo fora do caminho. Segundo eles, a desregulamentação, leis trabalhistas mais flexíveis e redução dos impostos sobre as empresas gerariam crescimento, lucros e melhores empregos.

Desde que Hatoyama tirou o PLD do poder em setembro de 2009, escândalos com o financiamento da campanha perseguem expoentes do PDJ e a aliança com os EUA se enfraqueceu. Houve um breve período, depois que Hatoyama se demitiu em junho, para que Kan recomeçasse. Era o novo rosto do partido, um ativista da área social pertencente a uma família de classe média, capaz de brincar com repórteres que era um debatedor graças às briguinhas constantes com sua esposa. Ele estendeu um ramo de oliveira a Washington na questão de Okinawa e à comunidade de negócios do Japão, tentando convencê-los de que podiam confiar no PDJ apesar de seus tropeços anteriores. Mas a gafe dos impostos fez com que seu índice de aprovação despencasse.

As relações exteriores são mais um ponto problemático. O governo continuará alimentando as relações com a China, apesar de disputas sobre campos de gás, de reivindicações territoriais de ambas as partes, de divergências em segurança dos alimentos, da poluição que se expande nas fronteiras e do crescente aumento do poderio militar chinês, implementado sem uma transparência tranquilizadora.

Mais preocupantes são os problemas do PDJ com Washington, que defendeu o acordo concluído em 2006 a respeito de Futenma. Hatoyama prometera em sua campanha transferir a base, mas recuou por causa da pressão americana. Os habitantes de Okinawa sentiram-se traídos, e o revés precipitou seu declínio. Kan procurou abrandar tensões afirmando que obedecerá ao acordo de 2006. Barack Obama visitará o Japão enquanto Okinawa realiza as eleições para governador em novembro, aumentando o risco de que o presidente americano se envolva na agitada política interna do Japão.

E como é agitada. Os eleitores japoneses já foram considerados leais e previsíveis, mantendo o PLD no poder por mais de 50 anos. Mas agora que tiraram inúteis do governo sentem-se mais dispostos a repetir o feito. Nas últimas eleições, procuraram o partido que parecia representar uma reforma. A cada vez, a expectativa do eleitorado foi frustrada.

Conforme o Japão entra em sua terceira década de estagnação, o público mostra-se desesperado por reformas mais drásticas. Será Kan o homem por quem o Japão tanto procura? A perspectiva de um parlamento sem maioria e uma coalizão fragmentada não parecem bom sinal. É verdade que o PDJ herdou esta situação, mas o partido é agora o "dono" da economia - a qual, por sua vez, deve ser controlada pela China em algum momento ainda este ano. Um notável lembrete da acelerada deterioração da economia japonesa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É DIRETOR DE ESTUDOS ASIÁTICOS DA UNIVERSIDADE TEMPLE, NO JAPÃO

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