Jatos dos EUA atacam linha de frente do Taleban

Aviões americanos bombardearam hoje posições de linha de frente do Taleban numa tentativa de facilitar o avanço da oposição até Cabul e outras grandes cidades afegãs. Num apelo buscando apoio no mundo muçulmano, o Taleban acusou os Estados Unidos de alvejarem cidades numa campanha de "genocídio" visando destruir o regime islâmico. Em Islamabad, Paquistão, o presidente Pervez Musharraf disse esperar que as operações militares no Afeganistão estejam concluídas até meados de novembro, quando tem início o mês sagrado muçulmano, Ramadã. Líderes em todo o mundo muçulmano temem hostilidades internas caso as operações contra o islâmico Afeganistão avancem pelo mês sagrado, que tem início em 17 de novembro. Com o aumento da pressão para romper rapidamente o controle do país pelo Taleban, jatos dos EUA deixaram de bombardear cidades e passaram a atacar posições do Taleban frente à oposicionista Aliança do Norte - especialmente unidades ao redor da capital Cabul e a cidade nortista de Mazar-i-Sharif. A captura de tais cidades marcaria um grande revés para o Taleban, que tem se recusado a entregar o dissidente saudita Osama bin Laden, o principal suspeito dos atentados terroristas de 11 de setembro. Ao longo da frente das tropas do Taleban nas proximidades de Cabul, jatos americanos bombardearam por duas vezes hoje posições taleban nas áridas e abandonadas vilas cerca de 40 km ao norte da capital. Grandes colunas de fumaça e de poeira emergiam da região, repleta de equipamentos militares enferrujados, resultado de duas décadas de conflito no Afeganistão. O Taleban, entretanto, manteve posições e respondeu com disparos de morteiro contra posições da Aliança do Norte. Jornalistas no local disseram que aviões americanos aparentemente chegaram a bombardear por engano posições da oposição. O porta-voz da Aliança do Norte, Ashraf Nadeem, noticiou também que os EUA atacaram durante todo o dia tropas talebans em Dar-e-Suf, na província de Samagan, cerca de 50 km a leste de Mazar-i-Sharif, e ao redor do distrito de Kishanday, a sudeste da cidade. Forças oposicionistas têm tentado sem sucesso capturar Mazar-i-Sharif, o que cortaria linhas de suprimento do Taleban no norte e permitiria que unidades anti-Taleban recebessem armas e munição vindas pelo norte do Usbequistão. "Nosso esforço é claramente ajudar aqueles no campo a ocupar mais território", afirmou o secretário de Defesa dos EUA, Donald H. Rumsfeld, a repórteres em Washington. Com a mudança de direção dos ataques, Cabul foi hoje poupada pela primeira vez pelos aviões americanos desde o início da ofensiva em 7 de outubro. Entretanto, o embaixador do Taleban no Paquistão, Abdul Salam Zaeef, denunciou hoje que aviões americanos e britânicos atacaram um hospital na cidade ocidental afegã de Herat, matando mais de 100 pessoas, entre médicos e pessoal médico. Rumsfeld negou a acusação, e a Grã-Bretanha afirmou que nenhum de seus aviões participou do ataque a Herat. Rumsfeld também negou que o Taleban, como garantiu o embaixador, derrubou dois helicópteros dos EUA. Durante uma entrevista coletiva em Islamabad, Zaeef acusou Washington de estar subestimando o número de vítimas civis durante sua campanha aérea. Ele garantiu que mais de 1.000 civis já foram mortos nos ataques. "Está claro que aviões americanos estão alvejando o povo afegão para punir a nação afegã por ter escolhido um governo islâmico", disse Zaeef. "A América está recorrendo ao genocídio dos afegãos". Ele afirmou que os EUA estariam, inclusive, usando armas químicas - uma acusação negada pelo Pentágono. O presidente George W. Bush ordenou a campanha de bombardeio aéreo depois que o Taleban recusou-se a entregar Bin Laden e seus principais colaboradores na rede terrorista Al-Qaeda. Comandantes da oposição ficaram claramente satisfeitos em ver jatos americanos bombardeando posições do Taleban e disseram esperar por mais ataques. "Estamos contentes porque essas duas bases são grandes fortificações", afirmou um comandante, Bismillah Khan. "E agora estamos otimistas sobre lançar um ataque bem sucedido". Washington tem sido relutante em permitir que a oposição entre em Cabul até que as facções afegãs que a compõem concordem com um governo de amplas bases para substituir o Taleban. O Paquistão exige que os Estados Unidos contenham a aliança, argumentando que a coalizão dominada pelas minorias étnicas tadjique e usbeque nunca será aceita pela maioria pashtun, que forma o grosso do Taleban. Integrantes da oposição também ficaram amplamente desacreditados depois de brutais lutas internas que marcaram seu governo de quatro anos. Estimadas 50.000 pessoas foram mortas em Cabul até que o Taleban expulsou a aliança da capital em 1996. Entretanto, pouco progresso foi feito na formação de um novo governo. Mais de duas semanas de ataques aéreos anglo-americanos ainda não conseguiram enfraquecer o domínio do Taleban nem provocar grandes deserções em suas fileiras. Ao terminar o Ramadã, o brutal inverno afegão terá começado e muitas rodovias e passagens em montanhas estarão bloqueadas pela neve, tornando muito difícil operações militares. Leia o especial

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