Jazida Vaca Muerta vira Eldorado argentino

Poços em Neuquén podem ter petróleo por até 40 anos

CARLOS E. CUÉ, EL PAÍS

21 de junho de 2015 | 02h04

Vaca Muerta não exala nenhum cheiro, mas é vista de muito longe. Depois de 80 quilômetros passando pelo impressionante Deserto da Patagônia, partindo de Neuquén, capital da província, a chegada às jazidas que despertaram os sonhos de grandeza dos argentinos é percebida pelo fogo que emana da torre de cada poço. É o gás excedente, de má qualidade, que não pode ser vendido e é proibido lançar na atmosfera. Então, ele é queimado.

No entorno pequenos arbustos e muita poeira. Um deserto coalhado de 400 poços perfurados hidraulicamente, a maior exploração de petróleo do mundo fora dos Estados Unidos. A Argentina, graças a Vaca Muerta, hoje é o segundo país com mais recursos de gás de xisto e o quarto em petróleo não convencional.

Uma manchete nos jornais no último fim de semana faz a Argentina sonhar: "Estados Unidos se transformam no primeiro produtor de petróleo do mundo". O fraturamento hidráulico revolucionou a economia americana e do planeta, com os países árabes reagindo e tentando forçar uma queda dos preços com o objetivo de destruir a rentabilidade dos poços do Texas.

A Argentina acredita que Vaca Muerta é uma joia como a que transformou o Texas no novo Eldorado. São 30 mil km² de rocha repleta de petróleo a 3 mil metros de profundidade e represada em microporos. Ele só pode ser retirado destroçando literalmente a rocha com água, areia e produtos químicos: é o fraturamento hidráulico.

Para esse empreendimento a Argentina aliou-se à empresa americana Chevron e trouxe pessoas como Aldo Guerrero, texano de origem mexicana que trabalhou 13 anos no Texas e outros 7 na Arábia Saudita e em outros países.

Ele é o responsável pela máquina de US$ 35 milhões que perfura o poço que visitamos, convidados pela YPF, a companhia argentina nacionalizada (cerca de 51%) por Cristina Kirchner depois de expropriá-la da empresa espanhola Repsol em 2012, precisamente quando Vaca Muerta começava a se tornar uma realidade.

"Viajei pelo mundo todo operando o fraturamento hidráulico. Aqui é até melhor do que o Texas. Esta rocha tem muitas possibilidades, muito futuro", diz Guerrero entusiasmado. É o único que dorme no poço, no meio do duríssimo Deserto da Patagônia, sem uma árvore à vista e com temperaturas que vão de 40° C no verão a - 14° C no inverno. À noite, apenas vento e silêncio.

Essas dificílimas condições de vida é que tornam o fraturamento hidráulico menos polêmico na Argentina, embora em Vaca Muerta os índios mapuches, que reivindicam a propriedade dessas terras, se oponham à exploração. "Fazer isso na superpovoada Europa ou em Buenos Aires não é a mesma coisa que no Deserto da Patagônia", afirma a YFP, que descarta, com argumentos técnicos, a possibilidade de riscos de contaminação dos aquíferos, principal temor dos ecologistas. "O fraturamento hidráulico é realizado a 3 mil metros de profundidade e os aquíferos estão a 200", alegam os responsáveis.Enquanto sobe na torre de 56 metros de onde controla a perfuração (3.100 metros abaixo e 2.305 metros na horizontal dentro da rocha, antes de lançar no buraco 20 caminhões cheios de água e areia a uma pressão de 10.000 PCI, inimaginável se pensarmos que um pneu de carro tem 30).

Martín Costa, chefe da equipe, ironiza com a imagem que todos têm de um poço de petróleo. "Se o petróleo jorrar e nos mancharmos, como nos filmes, é porque fizemos algo muito errado. Aqui tudo está entubado, nunca se vê o petróleo."

A tubulação é recoberta de cimento para evitar vazamentos, mas só até 350 metros de profundidade. Mais abaixo, garantem, não há como o petróleo atravessar os aquíferos. Tudo é metódico, mecanizado, aparentemente seguro. Um cartaz alardeia: "Noventa dias sem incidentes nesta equipe". Parece um recorde.

"Abrimos quase 400 poços. Ainda estamos aprendendo. Quando chegarmos aos mil teremos um conhecimento exato de tudo", afirma André Archimio, responsável pela tecnologia de fraturamento hidráulico na YFP. Quanto mais fazem, mais fica rentável, pois o custo por unidade diminui. Este é o grande problema econômico dessa tecnologia. Cada poço custa US$ 6 milhões. Apesar de terem conseguido reduzir bastante o custo que era de US$ 50 milhões em 2010. Um convencional custa apenas US$ 2 milhões.

Ainda assim, a Argentina necessita de enormes investimentos estrangeiros para abrir mais poços. Além da Chevron, empresa com a qual extrai 39 mil barris diários, a YFP já firmou alianças com a americana Dow e a malaia Petronas. E Cristina Kirchner acabou de firmar outros acordos com a chinesa Sinopec e a russa Gazprom.

Para garantir o investimento, o governo assegura que o petróleo se pagará com no mínimo US$ 77 e não US$ 60 como está hoje no mercado. Guerrero trabalha 28 dias seguidos e depois retorna à sua casa no Texas para descansar outros 28. Os demais trabalham em turnos de 12 horas e dormem próximo do campo, especialmente no pequeno povoado de Añelo, cuja população dobrou em dois anos, desde o início das operações de fraturamento.

Os chefes vão para Neuquén, onde a imprensa informa da iminente inauguração de novos hotéis de luxo para os executivos do setor de petróleo. Sol de Añelo, o melhor hotel do povoado, é um duas-estrelas com 69 quartos, cuja diária gira em torno de US$ 100. Está lotado o ano todo. Alguns moradores vendem suas casas por uma fortuna às empresas petrolíferas para instalarem seu trabalhadores e vão para lugares mais distantes da joia argentina.

A riqueza do petróleo é bem-vinda, mas também causa muitos problemas. Milhares de homens sós com dinheiro e poucas o opções para gastá-lo.

"Passamos de 3 mil para 6 mil habitantes. Este era um lugar tranquilo e chegou um tsunami. É preciso controlá-lo. Não queremos ser um acampamento petrolífero com 10 mil homens. Isso envolve drogas, prostituição, jogo. Queremos daqui a 20 anos ser uma cidade de 50 mil habitantes, mas para isso é preciso que venham com suas famílias. Estamos trabalhando nesse sentido", disse o prefeito, Darío Díaz.

Toda a província está em ebulição. O cassino de Añelo impressiona, mas o da capital, Neuquén, está entre os maiores da Argentina.

No livro Vaca Muerta (Editora Planeta), de Alejandro Bercovich e Alejandro Rebossio, que analisa em detalhe o fenômeno, os autores explicam que o desemprego em Neuquén caiu de 8% para 5%, mas se tornou a segunda província com mais máquinas caça-níqueis per capita. "O crescimento traz problemas, esse é o desafio", diz o prefeito.

A Argentina, um país rico em quase tudo, que foi uma potência mundial nos séculos 19 e 20 e acolheu milhões de europeus que fugiram da fome, vive momentos de incerteza econômica, como quase toda a América Latina, e sonha em retirar de Vaca Muerta um novo maná como outrora foram o trigo, a carne e hoje a soja.

A queda nos preços do petróleo preocupa a todos, mas também estão certos de que Vaca Muerta vai durar pelo menos 40 anos e o preço, acreditam, voltará a subir. O petróleo está lá embaixo e a Argentina pretende extraí-lo a todo custo. 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO. SOB LICENÇA DE ©CARLOS E. CUE /EDICIONES EL PAÍS, SL 2015


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