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Jean-Claude Duvalier, playboy e ditador

Filho de François Duvalier, Baby Doc herdou o autoritarismo do pai no empobreciso país caribenho

Lizbeth Batista, do Arquivo Estado

20 de janeiro de 2011 | 14h39

No dia 21 de abril de 1971, Jean-Claude Duvalier, ou Baby Doc, um playboy de 19 anos de idade, filho do ditador haitiano François Duvalier, ganhou o Haiti de presente.

 

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Até então o que se sabia sobre Baby Doc - apelido de infância que ainda detinha, apesar dos com 1,90 m e 120 kg - era sobre sua rico, que era solteiro, apreciador de carros de corridas e belas mulheres, e que não dividia a mesma animação pelas letras, já que não concluiu o colégio.

 

Seu pai, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, quase paralítico e com a saúde extremamente debilitada depois de um sério ataque cardíaco, surpreendeu a todos encontrando forças para uma manobra política.

 

Como último ato, Papa Doc fez com que a Assembleia Legislativa lhe concedesse poderes para indicar seu sucessor e que aprovasse uma reforma na Constituição, alterando a idade mínima para ocupar a presidência. Em janeiro de 1971, após 14 anos no poder o ditador nomeou Jean-Claude seu sucessor.

 

Investindo seu filho de poderes igualmente vitalícios e hereditários, Papa Doc colocou fim à disputa entre seus filhos pela sucessão, encerrando também o impasse entre o presidente do Supremo Tribunal (sucessor legal) e uma junta militar secreta pelo poder no país.

 

Ao assumir o comando do Haiti, Baby Doc preocupou-se em imprimir um ar de progresso à sua administração. No início do seu governo, buscou livrar seu país da imagem de um governo sanguinário e tirânico, reduzindo o poder das milícias rurais, que um dia formaram as bases do governo de seu pai, e reduziu a selvageria policial dos Tonton Macoute, uma mistura de guarda pessoal e força paramilitar.

 

Buscando reverter a imagem externa do Haiti, Jean-Claude tentava demonstrar que em seu país havia ordem e a lei vigorava. Parecia compreender que alguns passos no sentido de uma maior liberalização deveriam ser tomados, pois se faziam necessários para acompanhar o momento de melhora econômica de então, experimentado pela entrada de empresas americanas no Haiti, país atraente por sua mão-de-obra de baixíssimo custo.

 

Filho de peixe

 

Em 1979, a vitória do opositor Alexandre Lerouge nas eleições legislativas parecia dar vida a um incipiente movimento por maiores liberdades. O movimento foi prontamente sufocado em outubro do mesmo ano, com a promulgação da rígida lei de imprensa que imprimia duras penas para quem "ofendesse o regime ou insultasse os seus representantes."

 

Em 1983, o presidente Duvalier anulou as eleições municipais vencidas por candidatos opositores, acusando autoridades locais de intervir no resultado. Ele disse que os responsáveis seriam punidos, e que tal fato não prejudicaria seus esforços para instaurar a democracia.

 

Democracia que, até então, o Haiti não havia experimentado e que era referência frequente nos discursos de Baby Doc. De alguma forma, o ditador sempre parecia forçado a lançar mão de meios díspares a ela para conduzir seu governo.

 

Queda

 

Uma dura crise econômica e o empobrecimento da população ao longo da década de 80 desencadearam uma revolta popular que derrubou Jean-Claude Duvalier em 7 de fevereiro de 1986.

 

Baby Doc fugiu do país, mas não sem deixar uma mensagem ao povo haitiano. Quando cruzava o Atlântico a caminho da França, a cadeia estatal de rádio e televisão começou a transmitir a mensagem que ele deixara gravada. Nela, o ditador explicava sua decisão de "deixar o destino da nação nas mãos dos militares", para "entrar na história de cabeça erguida".

 

Enumerava seus feitos pelo Haiti, dizia ter "instaurado a estabilidade" e "tornado irreversível uma era de democracia e liberalização", e que Deus era testemunha de que jamais desejou derramar sangue.

 

Após ter seu exílio negado por vários países, a França concedera ao ex-ditador o direito de permanecer no país até ter seu pedido de asilo político atendido. Desde de então vive na Côte d'Azur.

 

Atualmente, Baby Doc é acusado de corrupção e desvio de verbas no Haiti - levou mais de US$ 100 milhões ao deixar o país - e é acusado por organizações de direitos humanos de crimes contra a humanidade.

 

Após 25 anos em liberdade na França, voltou ao Haiti para, segundo suas próprias palavras, "ajudar" o país mais pobre das Américas, que tenta se recuperar de um devastador terremoto de janeiro de 2010 e convive com a instabilidade social, política e econômica.

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