Philippe Wojazer / Reuters
Philippe Wojazer / Reuters

Jean-Marie Le Pen é suspenso da Frente Nacional na França

Líder histórico da extrema direita foi julgado pelo comitê diretor do partido, que tenta se distanciar da imagem de sigla fascista; filha Marine comanda o expurgo

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2015 | 18h09


PARIS - A direção executiva do partido de extrema direita Frente Nacional anunciou nesta segunda-feira, 4, em Paris, a suspensão de seu fundador, Jean-Marie Le Pen, após declarações em que negou o holocausto e defendeu os colaboradores de Hitler na França. A decisão foi tomada com o aval de sua filha e atual líder da sigla, Marine Le Pen. O desentendimento entre os dois, que se arrasta por um mês, pode levar até a implosão do partido, já que o empresário resiste ao afastamento da vida política.

A decisão foi informada na noite desta segunda, mais de seis horas após o início da reunião na sede do partido, na periferia de Paris. Le Pen deve perder seu atual cargo, o de presidente de honra, na próxima Assembleia-Geral, marcada para dentro de 90 dias. Até lá, o fundador terá sua filiação como membro da legenda suspensa à espera de uma deliberação final, que pode resultar até em sua expulsão do partido.

Le Pen chegou a comparecer à reunião do FN, mas saiu logo após o início se dizendo "desautorizado" e ofendido pelo procedimento em curso. "O presidente de honra, fundador da Frente Nacional, estima que é contrário à sua dignidade se apresentar diante de uma assembleia disciplinar quando ele se considera perfeitamente inocente", afirmou em nota. Em breve declaração, ele ressaltou que não abandonará a vida pública.

As desavenças entre Jean-Marie e sua filha, Marine, intensificaram-se depois que o pai gravou um depoimento e concedeu duas entrevistas nas quais voltou a minimizar o holocausto, que considera "um detalhe" da 2.ª Guerra Mundial, e a elogiar o regime de Vichy, comandado pelo Marechal Philippe Pétain, que colaborava com as forças de ocupação da Alemanha nazista sob as ordens de Adolf Hitler. Com as declarações, que se juntam ao histórico de polêmicas envolvendo racismo, xenofobia, antissemitismo e islamofobia, Le Pen pretendia bombardear a nova estratégia da direção da legenda, que tenta se distanciar do rótulo de partido fascista ou de extrema direita.

Sob a gestão de Marine Le Pen, além de se apresentar como um partido "nem de esquerda, nem de direita", a FN tem renegado bandeiras históricas, como retirar a França da União Europeia. Nesse momento, a legenda populista discute a proposta de passar a defender a permanência do país também na zona do euro - a maior parte da opinião pública é favorável à moeda única. O discurso sobre imigração, porém, continua o mesmo, ainda que não prometa mais o repatriamento de estrangeiros já radicados.

Diante da incontinência verbal de Jean-Marie, Marine Le Pen voltou neste fim de semana a desautorizar o pai. "Jean-Marie Le Pen não deve mais se expressar em nome da Frente Nacional, porque suas declarações são contrárias à linha fixada", afirmou a filha no domingo, em entrevista à rádio Europe 1 e à emissora i-Télé.

Mas se depender da velha guarda do partido, ainda mais radical que a nova, o fundador não será excluído, nem perderá os títulos na legenda que criou em 1972. "Em um momento no qual milhões de franceses se manifestaram em defesa da liberdade de expressão, seria paradoxal que o único que seja privado da sua seja Jean-Marie Le Pen", ironizou o deputado europeu Bruno Gollnisch, um dos expoentes da extrema direita.

A disputa no interior da Frente Nacional é importante porque o partido de extrema direita, antes marginalizado, está no centro do jogo político na França, um dos motores da UE. Pesquisas de opinião indicam que a sigla tem chances de chegar ao segundo turno das eleições ao Palácio do Eliseu em 2017, seja enfrentando o atual presidente, o socialista François Hollande, seja seu antecessor de direita, Nicolas Sarkozy.

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