Jerusalém e o passado

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 03h00

Sem que isso tenha nada a ver com a guerra da Síria, Israel não escapa do clima de crise que afeta vários outros países do Oriente Médio. 

Pequeno em termos de superfície e população, o Estado hebreu é entretanto uma das principais potencias da região. Dotado de equipamentos ultramodernos de origem essencialmente americana, seu Exército infligiu inúmeras derrotas a coalizões militares árabes muito superiores em efetivos.

Israel é o único país, aliás, nesta parte do mundo, que tem um arsenal nuclear. Embora não tenha dificuldade para defender suas fronteiras, é em seu interior que Israel sofre de uma grande vulnerabilidade. De fato, nunca conseguiu conciliar os dois imperativos que são, para ele, a anexação formal ou latente dos territórios árabes conquistados em guerras sucessivas, e sua segurança interna, periodicamente comprometida por violentos levantes populares nas zonas ocupadas, acompanhados por atos de terrorismo que visam militares ou civis israelenses.

É o que vem acontecendo desde o início de outubro, com os sangrentos tumultos provocados pela irrupção de fiéis judeus na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, cidade sagrada onde as paixões religiosas se revestem frequentemente de uma intensidade que beira a histeria. 

A Esplanada é o terceiro lugar sagrado para o Islã, pois abriga o Domo da Rocha, de onde o profeta Maomé teria subido aos céus, e a grande Mesquita al-Aqsa; mas este lugar é também o mais sagrado do judaísmo, porque nele se encontra o Muro das Lamentações, único vestígio do Segundo Templo erguido sob o rei Herodes, no mesmo lugar do Templo (completamente destruído) de Salomão.

A Esplanada das Mesquitas é administrada por uma fundação islâmica presidida pelo Reino de Jordânia, mas é Israel que controla o seu acesso. Os judeus só podem ser admitidos em determinadas horas, mas sem ter o direito de recitar orações em seu interior. Os muçulmanos podem orar a qualquer momento, mas são submetidos a severas restrições israelenses.

É a preservação deste complexo statu quo que está em jogo atualmente, porque Israel recusou de fato todos os projetos de internacionalização dos lugares santos judaicos, muçulmanos e cristãos de Jerusalém, fórmula que permitiria que os adeptos das três grandes religiões monoteístas se dedicassem livremente, sem conflitos, ao culto de um Deus que, por sua vez, é o de todos e de ninguém.

Ocorre que - isso dura já um século - a briga a respeito dos lugares sagrados continua sendo a causa direta das sequências mais sangrentas do conflito israelense-palestino. Aliás, o debate é tão violento que acaba de dar lugar a incríveis absurdos equivalentes a uma discutível tentativa de reescrever a História. Vimos também Binyamin Bibi Netanyahu provocar indignação - até em Israel - ao afirmar diante do Congresso sionista que Hitler só queria deportar os judeus e não exterminá-los, mas que o mufti de Jerusalém, Haji Amin el-Husseini, personagem reverenciado pelos palestinos, o teria incitado a perpetrar o Holocausto.

Por sua vez, vários países árabes tentaram conjuntamente fazer com que a Unesco adotasse um projeto de resolução que tornaria o Muro das Lamentações uma parte integrante da Esplanada, o que causou a ira de Israel e a total reprovação da secretaria desta organização internacional. Estes países (Egito, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Argélia, Marrocos e Tunísia) acabaram renunciando à exigência; entretanto, eles obtiveram da Unesco uma firme condenação das agressões israelenses, das medidas ilegais tomadas contra os fiéis muçulmanos, e das irrupções de extremistas judeus na Esplanada.

Entretanto, mais urgente do que estas ofensas à verdade histórica é o trágico presente, os confrontos que deixaram em três semanas uma dezana de israelenses e cerca de 50 palestinos mortos. Não menos angustiantes são as perspectivas do futuro. Sucessivamente, Ban Ki-moon e John Kerry esforçaram-se por pedir o comedimento aos dois campos, sem, porém, propor um plano preciso para pôr fim ao impasse. 

O secretário-geral da ONU disse que compreendia os sentimentos dos dois lados: a frustração dos palestinos diante da incapacidade das grandes potências de encaminharem novamente o processo de paz, mas também a cólera dos israelenses diante da multiplicação dos ataques terroristas de que são alvo.

Ban Ki-moon não repudiou o comportamento de uns e de outros. Pediu aos palestinos que depusessem pedras e facas e lembrou aos israelenses que somente uma paz justa poderá garantir sua segurança.

Em Berlim, onde se encontrou com Binyamin Netanyahu, o secretário de Estado americano John Kerry exigiu o fim de toda violência. Mas, para tanto, ainda será preciso que a razão vença a paixão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É JORNALISTA RADICADO EM BEIRUTE

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