Jesus versus Mao

Censura faz Cristo aparecer mais que comunista em rede social chinesa

BETHANY, ALLEN, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2014 | 02h07

Na imensa rede social chinesa Weibo, semelhante ao Twitter, é mais fácil falar de Jesus do que do presidente da China e secretário-geral do Partido Comunista, Xi Jinping. O Partido Comunista Chinês, ateu e conhecido por sua ocasional mão pesada nas políticas ligadas à religião - do islamismo ao cristianismo, passando pelo budismo tibetano - parece muito mais disposto a permitir o uso de terminologia cristã no Weibo do que de vocabulário comunista, de acordo com resultados de buscas feitas na plataforma no dia 3.

Uma busca pela palavra "Bíblia", por exemplo, rendeu mais de 17 milhões de respostas, enquanto as icônicas Citações do Presidente Mao - coleção de escritos do líder comunista conhecida no Ocidente como Livrinho Vermelho e amplamente distribuída - foram mencionadas menos de 60 mil vezes. O termo "congregação cristã" foi mencionado 41,8 milhões de vezes, enquanto "Partido Comunista" tinha apenas 5,3 milhões de menções.

É provável que o pequeno exército de censores do governo chinês, cujo número é estimado em 100 mil, desempenhe um papel nessa surpreendente disparidade. Publicações que tragam conteúdo "politicamente sensível" são com frequência apagadas, assim como muitas postagens contendo os nomes dos principais líderes chineses - talvez para evitar controvérsias e críticas.

A mídia estatal chinesa traz manchetes com o nome do presidente chinês diariamente, mas o termo "Xi Jinping" recebeu apenas 4 milhões de menções no Weibo. Em comparação, "Jesus", certamente ausente das manchetes de jornais na China, foi mencionado quase 18 milhões de vezes.

Isso não significa que o conteúdo cristão se veja livre da censura. Uma busca pelos termos "igreja clandestina", referência às congregações cristãs na China que se recusam a se inscrever entre as igrejas permitidas pelo governo, dá como resultado uma página de busca em branco com o seguinte alerta: "Não foi possível exibir os resultados em decorrência de leis e regulações".

A falta de interesse na ideologia comunista e o crescente interesse pelo cristianismo também podem ajudar a explicar a frequência relativamente alta do conteúdo ligado a essa religião no Weibo. O cristianismo cresce rapidamente na China há mais de duas décadas e, embora as estimativas oficiais falem em cerca de 25 milhões de cristãos chineses, muitos observadores de fora concordam que esse número deve estar mais perto dos 60 milhões.

Embora não seja uma ciência exata - os resultados das buscas do Weibo estão sujeitos às demandas diárias das tendências entre os usuários e da ação dos censores -, a comparação entre os dados de busca demonstra que o conteúdo ligado ao cristianismo é mais popular ou mais permitido no Weibo do que conteúdo relacionado com o comunismo. Comentários sobre religião deixam o governo chinês inquieto e, às vezes, aterrorizado, mas é a política que mantém seus líderes (e censores) acordados durante a noite. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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