Jihadismo é o maior rival na Síria, diz rebelde

No Brasil a convite de central sindical, sírio relata ferocidade de religiosos contra laicos

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2013 | 02h12

"Os grupos radicais islâmicos estão lutando mais contra nós do que contra o regime." A afirmação é de Abu Maen, nome de guerra de um membro do conselho local de Minbej, cidade controlada pelos rebeldes na Província de Alepo, no norte da Síria.

Na visão desse estudante de ciência política de 21 anos, que veio ao Brasil a convite da central sindical Conlutas para dar palestras sobre a situação síria, a "revolução popular", conduzida por pessoas comuns como ele, está sendo esmagada tanto pelo regime quanto pelos grupos radicais islâmicos e pelas diversas facções que compõem o Exército Sírio Livre (ESL), cada uma obedecendo aos interesses dos países que as financiam.

Abu Maen, que estudava em Lugano, na Suíça, quando a guerra civil estourou, em 2011, e voltou a seu país, contou ao Estado como o grupo radical Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis, na sigla em inglês) assumiu o controle da produção e distribuição de pão, para exercer o poder sobre sua região.

Em Minbej está localizado um dos seis moinhos de trigo da Síria. O conselho local da cidade, chamado Brigada de Segurança, vendia o feno de fazendas por ele controlado, comprava o trigo, transformava-o em farinha e o distribuía pelas padarias da região, onde o pacote de oito pães era vendido por 40 libras sírias (US$ 0,36), o preço tabelado antes da guerra civil - embora seu custo de produção fosse 48 libras.

O Isis começou a propagar nas mesquitas que podia vender o pacote por 15 libras - o que é "impossível", segundo Abu Maen. Primeiro, o grupo ocupou as fazendas de onde a Brigada retirava o feno. Depois, tomou o e, em seguida, os silos onde o trigo era armazenado. E passou a controlar a distribuição da farinha para as padarias. "Quem controla o pão controla o povo", conclui o estudante.

Conselhos locais como o de Minbej foram formados pelos manifestantes que pediam democracia no início do movimento, em março de 2011, que acabou em guerra civil depois da violenta repressão do regime. Sua intenção era cuidar da administração dos aspectos civis da vida nas cidades dominadas pelos rebeldes. "Distribuíamos o pão para a população sem nos preocuparmos com filiações políticas e mantínhamos uma separação clara entre as esferas civil e militar", assegura Abu Maen. "Esses grupos assumem o controle da vida civil para chantagear a população."

O ativista observa que os "irmãos muçulmanos" (seguidores da organização multinacional Irmandade Muçulmana) não apresentam propostas concretas. Apenas afirmam que querem instaurar um "emirado islâmico na Síria".

Abu Maen contou que o Hezbollah, o grupo xiita libanês patrocinado pelo Irã, é a força militar mais profissional no conflito sírio e combate na linha de frente. "Sabemos quando é o Hezbollah que está lutando, por sua técnica", disse ele. "O Exército sírio é caótico como nós." Ele assegurou que tropas regulares do Exército iraquiano, denominadas Brigada Al-Mahdi, também lutam ao lado do regime e do Hezbollah. O governo de maioria xiita do Iraque está alinhado com o Irã, que apoia o regime sírio. Por meio de interceptações de rádio, eles percebem que quem dá as ordens são pessoas com "sotaque libanês" - o que os leva a concluir que o Hezbollah comanda os iraquianos.

Inicialmente, a Frente Al-Nusra, como afiliada da Al-Qaeda, "tinha muito dinheiro", recorda Abu Maen. Mas seu líder, Abu Mohamed al-Golani, rejeitou a orientação da Al-Qaeda, segundo a qual secularistas (defensores da separação entre política e religião) que lutavam contra Damasco deveriam ser igualmente combatidos.

Da ruptura entre Al-Nusra e Al-Qaeda surgiram três correntes, relata Abu Maen: os que seguem a linha extremista e sectária da Al-Qaeda formaram o Isis; o grupo de Golani continuou na Al-Nusra, que, porém, perdeu força, e se considera parte do ESL; e uma terceira corrente desertou completamente e entrou para as fileiras do ESL.

Segundo ele, o Isis tem "assassinado, um por um" os militantes que se destacam na luta contra o regime e não apoiam os grupos islâmicos. Abu Maen diferencia os dois grupos: "Se eu disser para alguém da Al-Nusra que não quero um emirado islâmico na Síria, ele ficará bravo, mas não me matará. Já para o Isis, isso é motivo para guerra."

Para Abu Maen, o que enfraquece o ESL é a sua divisão entre facções, patrocinadas pela Arábia Saudita, Catar, Turquia, EUA e países europeus. O mesmo acontece com a Coalizão Nacional Síria, a oposição no exílio, segundo ele. "Mesmo sendo desorganizado e corrupto, o ESL é bem-vindo pela população, quando ocupa uma área", afirma ele. "O povo sírio não quer a manutenção do regime."

Abu Maen comemorou o fato de os EUA não terem bombardeado a Síria. "Eles teriam colocado outra ditadura, obediente a eles, no lugar de Assad", considera. Mas não vê com otimismo as negociações de paz marcadas para Genebra: "O regime e a oposição tentarão dividir a Síria entre eles. É o tiro de misericórdia na revolução popular".

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