Jimmy Carter fica com Prêmio Nobel da Paz de 2002

O ex-presidente americano Jimmy Carter foi apontado hoje como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano, numa inusitada e implícita crítica à política militarista do atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. O presidente da Comissão Nobel, Gunnar Berge, chegou a dizer, depois de anunciar Carter como o ganhador do prêmio, que a escolha "poderia e deveria ser interpretada como uma crítica à linha que a atual administração (americana) está adotando", numa referência à escalada da retórica de guerra de Washington contra o Iraque. Outros membros da comissão - que normalmente não expressam suas posições sobre questões políticas - desmentiram que a crítica a Bush tivesse motivado a escolha de Carter. "Essa não é a opinião da comissão", declarou a política norueguesa e uma das juradas do Nobel, a conservadora Inger Marie Ytterhorn. Sua colega de comissão, Hanna Kvanmo, política de esquerda, também apressou-se a esclarecer que Berge tinha emitido apenas a "opinião pessoal" sobre o tema. O único membro da comissão a apoiar Berge foi Gunnar Staalsett. "Berge apresentou uma interpretação que eu não tenho nenhum problema em apoiar", disse. Carter, presidente democrata de 1977 a 1981, reiterou ontem - depois de ser informado de que tinha ganhado o prêmio - que se opõe a qualquer ação unilateral dos EUA contra o Iraque. Bush telefonou para o ex-presidente para cumprimentá-lo após o anúncio da Comissão Nobel e conversou com ele por cerca de dois minutos. Berge também causou um certo assombro entre os membros da comissão quando acrescentou que a premiação de Carter era uma espécie de "pedido de desculpas" ao ex-presidente. Em 1978, ele só não recebeu o prêmio com o ex-primeiro-ministro israelense Menachen Begin e o assassinado presidente egípcio, Anuar Sadat (ler ao lado), porque não tinha sido nomeado candidato oficialmente. Depois do "erro de procedimento" da comissão, Carter passou a ser uma espécie de candidato permanente ao prêmio e, por essa mesma condição, quase sempre posto à margem da escolha final. Aos 78 anos, Carter se tornou o terceiro presidente americano a ser premiado com o Nobel, depois de Woodrow Wilson e Theodore Roosevelt. Depois de deixar o poder, Carter passou a trabalhar na divulgação de idéias em favor dos direitos humanos e da consolidação da democracia em todo o mundo. Em 1982, fundou o Centro Carter, uma organização encarregada de promover essas idéias. "As pessoas de todo o mundo dividem o mesmo sonho, de uma comunidade internacional responsável, que previna a guerra e evite a opressão", declarou Carter numa nota oficial distribuída pelo Centro Carter logo depois do anúncio do prêmio. No comunicado, ele afirma que durante as últimas duas décadas, ao viajar com sua mulher, Rosalynn, por vários países do mundo, seu conceito de direitos humanos se tornou mais abrangente. "Esse conceito, hoje, não significa apenas o direito a viver em paz, mas inclui cuidados de saúde adequados, habitação, alimentação e de ter acesso a oportunidades econômicas justas", acrescentou. "Tenho esperança de que esse prêmio demonstre que esse conceito mais amplo de direitos humanos começa a ser universalmente aceito."

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