Em cúpula, Joe Biden e Xi Jinping falam em 'evitar conflitos mundiais'

Em cúpula, Joe Biden e Xi Jinping falam em 'evitar conflitos mundiais'

Marcado por tensões militares e geopolíticas, terceiro encontro entre os dois líderes teve discordâncias sobre a pandemia de covid-19, acordos comerciais e a relação com Taiwan

AP e Reuters, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 21h48
Atualizado 16 de novembro de 2021 | 09h24

Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da China, Xi Jinping, se reuniram na noite de segunda-feira, 15, para evitar conflitos e melhorar a cooperação entre as duas maiores potências do mundo. Terceiro encontro entre os líderes desde a posse de Biden, a cúpula virtual teve discordâncias acerca da pandemia da covid-19, de acordos comerciais e da relação com Taiwan. Antes da reunião, funcionários da Casa Branca afirmaram ter baixas expectativas sobre as negociações.

Na conversa de três horas e meia, os chefes de Estado enfatizaram o dever de evitar conflitos mundiais. “Parece-me nossa responsabilidade como líderes da China e dos Estados Unidos garantir que a competição entre nossos países não entre em conflito, seja intencional ou involuntariamente", afirmou o presidente americano.

Apesar disso, houve discordâncias entre os líderes, como sobre a origem do novo coronavírus, regras de comércio e concorrência, expansão do arsenal nuclear de Pequim e pressão sobre Taiwan. Um pequeno grupo de repórteres participou dos primeiros minutos do encontro antes que os presidentes e seus assessores passassem a conversar em privado. Após a reunião, cada lado destacou pontos de discórdia, mas prometendo cooperar.

“Quando se trata de relações EUA-China, as diferenças são tão grandes e as linhas tendenciais, tão problemáticas, que o toque pessoal não consegue muita coisa”, afirmou Matthew Goodman, que trabalhou como conselheiro para Ásia no Conselho de Segurança Nacional durante os governos de Barack Obama e George W. Bush.

Autoridades da Casa Branca tinham baixas expectativas para a reunião: nenhum grande anúncio era esperado e não havia planos para a formulação do costumeiro comunicado conjunto dos países após a conversa, de acordo com fontes do governo americano. 

Os sinais públicos de cordialidade — Xi referiu-se a Biden como “velho amigo” quando o americano visitou a China em 2013, quando o então vice-presidente falou da “amizade” entre os dois — esfriaram agora que ambos se tornaram chefes de Estado. Biden aborreceu-se em junho, quando um repórter lhe perguntou se ele pressionaria o velho amigo para cooperar com a investigação da Organização Mundial da Saúde a respeito das origens do coronavírus. 

“Vamos deixar uma coisa bem clara: nos conhecemos bem; não somos velhos amigos”, afirmou Biden. “São apenas negócios.” 

Biden, não obstante, acredita que reuniões cara a cara — mesmo um encontro virtual como o que os líderes mantiveram na segunda-feira — têm seu valor. 

“Ele sente que o histórico de sua relação, que ter passado tempo com Xi, o permite ser bastante franco, como foi no passado e continuará a ser”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, em um comunicado prévio ao encontro. 

Biden e Xi, respectivamente de 78 anos e 68 anos, conheceram-se pessoalmente em viagens pelos EUA e pela China, quando ambos eram vice-presidentes de seus países; interações que, afirmam os líderes, deixaram marcas duradouras.   

Ultimamente, houve sinais de que poderia haver um degelo pelo menos parcial nas relações, após os primeiros nove meses do governo Biden terem sido marcados por recriminações comerciais de ambos os lados e intercâmbios contraproducentes entre os mais graduados conselheiros dos presidentes. 

Na semana passada, por exemplo, EUA e China prometeram na cúpula climática da ONU, em Glasgow, Escócia, aumentar e acelerar suas ações para controlar as emissões prejudiciais ao meio ambiente. 

A reunião da segunda-feira — a terceira interação entre os líderes desde que Biden virou presidente — ocorre em meio a crescentes tensões na relação EUA-China. Os presidentes falaram longamente pelo telefone em fevereiro e setembro, quando discutiram direitos humanos, comércio, a pandemia e outros assuntos. 

Biden deixou claro que considera a China o maior competidor dos EUA em termos de segurança nacional e economia; e tem tentado moldar a política externa americana para refletir essa crença. 

Seu governo tem cobrado Pequim sobre os abusos de direitos humanos que comete contra minorias étnicas no noroeste da China, por esmagar os esforços pró-democracia em Hong Kong e por resistir à pressão global para cooperar com as investigações sobre as origens da pandemia de coronavírus. 

As tensões também se intensificaram à medida que a China aciona cada vez mais aviões militares para sobrevoar as proximidades da ilha autônoma de Taiwan, que Pequim considera parte de seu território. 

Autoridades chinesas sinalizaram que Taiwan estará no topo da lista de discussão entre os líderes. Biden deixou claro que seu governo adotará a tradicional política americana de “Uma China”, que reconhece Pequim mas permite a Washington relações informais e laços militares com Taipé. Forças militares chinesas realizaram exercícios na semana passada nas proximidades de Taiwan em resposta à visita de uma delegação de congressistas americanos à ilha. 

Biden tencionava, em parte, usar o diálogo para enfatizar a necessidade de estabelecer “salvaguardas" na relação entre os países, para garantir que ambos os lados, em meio à sua acirrada competição, evitem “conflitos não intencionados”, de acordo com uma graduada autoridade do governo que falou com repórteres na Casa Branca a respeito da reunião sob condição de anonimato. 

A autoridade afirmou que a videochamada deveria durar “várias horas”, acrescentando que a Casa Branca estava esperançosa de que o fato de os líderes se verem durante a conversa permitiria maior profundidade em seu diálogo do que nos dois telefonemas anteriores ocorridos este ano. 

Outros presidentes americanos sustentavam que estabelecer laços com adversários geopolíticos pode ser uma boa estratégia de política externa. George W. Bush foi ridicularizado após sua primeira reunião com o russo Vladimir Putin, por afirmar que havia “olhado o homem no olho” e foi “capaz de sentir sua alma”. Bush foi além e recebeu o líder russo em seu rancho, em Crawford, Texas, e o levou à propriedade de seu pai, em Kennebunkport, Maine, onde os 43.º e 41.º presidentes americanos o levaram para pescar. Putin por fim decepcionou Bush, e sua relação foi rompida em 2008, após a Rússia invadir a vizinha Geórgia.

Donald Trump, depois de referir-se depreciativamente ao norte-coreano Kim Jong-un, como “homem-foguete”, declarou que ambos “se apaixonaram” em uma troca de mensagens, enquanto o americano tentou, sem sucesso, persuadir Kim a desistir do programa de armamento nuclear de seu país. 

O toque pessoal de Biden na política externa é, em parte, fundamentado pelo fato de que ele atuou no cenário internacional por grande parte dos últimos 50 anos, notou o escritor  Evan Osnos na biografia Joe Biden: The Life, the Run, and What Matters Now (Joe Biden: a vida, a trajetória e o que importa agora).

“Você pode soltá-lo no Cazaquistão ou no Bahrein, não importa — ele vai encontrar alguém que conheceu 30 anos atrás e agora está governando o lugar”, disse a Osnos Julianne Smith, uma conselheira de Biden.

Com Pequim prestes a sediar a Olimpíada de Inverno, em fevereiro, e Xi prestes a ser eleito pelos líderes do Partido Comunista para um terceiro mandato de cinco anos como presidente, em 2022, algo sem precedentes na história recente da China, o líder chinês poderá buscar uma estabilização nas relações no curto prazo. 

O lento crescimento econômico e uma crise habitacional em fabricação também assombram Pequim. A secretária do Tesouro, Janet Yellen, alertou em entrevista ao programa Face the Nation, da rede CBS, exibida no domingo, que o agravamento dos problemas de Pequim teria “consequências globais”. 

Ao mesmo tempo, Biden, que tem visto diminuir seus índices de popularidade em casa, entre preocupações a respeito da persistência da pandemia de coronavírus, da inflação e dos problemas nas cadeias de fornecimento, está buscando encontrar o equilíbrio com a mais importante questão de política externa que encara.     

Biden teria preferido encontra-se presencialmente com Xi, mas Xi não sai da China desde antes da pandemia de coronavírus começar. A reunião virtual foi proposta depois que Biden afirmou, durante o telefonema de setembro com o líder chinês, que gostaria de poder vê-lo novamente. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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