Jogadas diplomáticas para tentar resolver a crise na Síria

Para analistas, haveria um plano para o Irã pressionar Assad

É JORNALISTA , RICK, GLADSTONE, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA , RICK, GLADSTONE, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h07

Com a Síria avançando para o que parece ser uma guerra civil sectária, o presidente sírio, Bashar Assad, tem projetado para si a imagem de líder confiante e popular a um passo da vitória, talvez emprestando lições aprendidas com o único aliado regional que lhe resta, o Irã, aprendendo a resistir à pressão externa numa crise.

Mas rápidas jogadas na diplomacia internacional, uma reunião de seus muitos inimigos na vizinha Turquia e a especulação segundo a qual seus aliados iranianos estariam relaxando seu apoio estão apresentando novos desafios para Assad, um dos autocratas do mundo árabe que passou mais tempo no poder.

Na quarta-feira, o secretário-geral das Nações Unidas basicamente exigiu que Assad acatasse imediatamente uma proposta de cessar-fogo com base em seis pontos com a qual seu governo tinha concordado na véspera.

O principal representante da ONU para questões relacionadas aos direitos humanos acusou o governo sírio de torturar crianças. O Conselho Nacional Sírio, grupo misto que reúne muitos exilados pelo regime de Assad e é afetado pelas diferenças internas, concordou em tentar se reorganizar para apresentar uma frente unida de oposição.

Mas a notícia mais intrigante foi talvez a visita do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, ao Irã, depois de se reunir com o presidente americano, Barack Obama, durante a Cúpula de Segurança Nuclear, na Coreia do Sul. Erdogan mantém boas relações tanto com Obama quanto com os líderes iranianos. Ele é também um dos principais detratores de Assad, aliando-se aos Estados Unidos e contrariando o Irã ao contestar a legitimidade do presidente desde que Assad deu início a uma violenta repressão aos levantes populares no país, iniciados há um ano, que têm assumido tonalidades cada vez mais sectárias.

Representantes do governo negaram que Erdogan estivesse levando uma mensagem de Obama ao Irã. Mas a visita do líder turco trouxe à tona a possibilidade de o Irã estar buscando uma maneira de se afastar de Assad, por mais que seus líderes declarem publicamente apoiá-lo. Talvez o Irã esteja disposto a mudar sua posição em relação à Síria em troca de concessões associadas ao outro grande tema que desafia seus líderes: a disputa nuclear com o Ocidente.

"Não é difícil imaginar um acordo no qual os iranianos aceitariam retirar seu apoio a Assad em troca de um acordo envolvendo a questão nuclear", disse Bruce W. Jentleson, professor de políticas públicas e ciência política da Universidade Duke e ex-conselheiro do Departamento de Estado.

Radwan Ziadeh, membro do Conselho Nacional Sírio e diretor executivo do Centro Sírio de Estudos Políticos e Estratégicos, de Washington, disse que se tornou até "difícil para o Irã sustentar o apoio a Assad".

Num gesto que indica uma movimentação mais intensa em relação à questão nuclear, o ministro iraniano das relações exteriores, Ali Akbar Salehi, anunciou na quarta-feira que a tão esperada retomada das negociações envolvendo as contestadas atividades de enriquecimento de urânio do Irã ocorrerá a partir de 13 de abril.

Apoio. Salehi, cujos comentários foram publicados pela agência oficial iraniana Irna, disse também que Teerã apoiava o plano de paz para a Síria que foi desenvolvido por Kofi Annan, enviado especial da ONU e da Liga Árabe, aceitado formalmente por Assad na terça-feira.

A afirmação iraniana sugeriu que o governo de Teerã pode estar disposto a pressionar Assad a aderir ao plano, que estabelece condições para um cessar-fogo sem incluir a renúncia dele.

Analistas dizem que existe a possibilidade de Assad e a liderança iraniana estarem seguindo uma estratégia que o próprio Irã já empregou com maestria anteriormente: prometer um envolvimento sincero na diplomacia como forma de ganhar tempo. Houve sinais de que Assad estaria tentando algo do tipo na quarta-feira, com relatos não confirmados de novos ataques contra os opositores em todo o país.

"É por isso que não acreditamos que Assad vai de fato aceitar o plano proposto por Kofi Annan", disse Ziadeh. Outros afirmaram que talvez Assad tenha se convencido de que está próximo da vitória. Isso pode explicar por que Assad fez uma visita transmitida pela TV à cidade arrasada de Homs, enclave dos insurgentes, no mesmo dia em que concordou com a proposta de Annan.

"Assad não tem nada a perder se seguir essa diplomacia. Tenho certeza que é isso que o Irã o está encorajando a fazer", disse Joshua M. Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma. "Mas, ao mesmo tempo, acho que Assad acredita que já chegou à fase da limpeza." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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