Jogo de culpa no Oriente Médio

Americanos, palestinos e israelenses querem empurrar para o outro a responsabilidade pelo fracasso na negociação de paz

Aaron David Miller, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Quando o secretário de Estado dos EUA James Baker estava organizando a conferência de paz de Madri, em 1991, recorreu a um estratagema que chamou de "gato morto na porta do vizinho". Resumindo, ameaçou acusar publicamente os líderes israelenses, palestinos e sírios se eles não aceitassem os termos propostos ou não participassem da reunião. Funcionou.

Ironicamente, esse tipo de estratagema serve para a atual situação do processo de paz israelo-palestino, mas ao inverso. Agora, não se trata de um americano ameaçando israelenses e palestinos. Hoje, todos estão manobrando para assegurar que o outro assuma a culpa quando a poeira assentar após a provável "crise" nas Nações Unidos, no próximo mês - ocasião em que palestinos pretendem levar uma proposta de reconhecimento de Estado.

Durante algum tempo, o processo de paz entre israelenses e palestinos não se constituiu numa negociação séria. Isso porque ninguém em Jerusalém, Ramallah ou Washington acreditava que um acordo, sem falar num fim ao conflito, fosse possível.

Houve um breve período, no início do governo Barack Obama, em que israelenses e palestinos se entusiasmaram com o novo presidente e pareciam dispostos a negociar um acordo. No entanto, ninguém acredita mais nisso.

O que ainda importa para israelenses e palestinos, contudo, é garantir que a culpa pelo fracasso da iniciativa em favor de um Estado palestino seja arcada por outra pessoa.

Obama também parece disposto a fazer o mesmo jogo. Mesmo que o governo consiga evitar essa iniciativa, apresentando uma outra fórmula para relançar as negociações, ninguém quer correr o risco de tomar decisões que possam produzir um acordo de verdade. Fazer declarações é muito mais fácil do que fazer a diferença.

O problema entre israelenses e palestinos não deve ser tratado com banalidade. Os ataques na semana passada, perto de Eilat, e a reação israelense a eles, mostram que a violência está sempre presente, ameaçadora.

Palestinos estão sofrendo, o estatuto de Israel como um Estado judeu e democrático está em risco e a credibilidade americana está na corda bamba. Se os líderes palestinos e judeus quisessem resolver o seu problema, ou pelo menos caminhar seriamente na direção de uma negociação (com ou sem ajuda dos EUA), não estaríamos presenciando um grande jogo de acusações.

Por mais desagradável que seja esse status quo, o fato é que, para israelenses, palestinos e americanos, manter as coisas como estão parece muito menos arriscado do que tomar as decisões necessárias para mudar a situação. Até essa avaliação mudar - impulsionada pelas perspectivas de perdas e ganhos reais - veremos muitos gatos mortos nas redondezas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-ASSESSOR DO DEPARTAMENTO DE ESTADO PARA O PROCESSO DE PAZQ

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