Jogo de drones

Aviões não tripulados são o futuro; alvo é nossa privacidade

MAUREEN, DOWD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2014 | 02h02

Jerry Bruckheimer, que coproduziu Top Gun - Ases Indomáveis, filme de 1986 que ele um dia descreveu como "Guerra nas Estrelas na Terra", revelou ao site The Huffington Post que ele e Tom Cruise estão chegando cada vez mais perto de um acordo para uma sequência.

"A questão é, basicamente: os pilotos serão obsoletos em razão dos drones?", diz Bruckheimer. "Cruise vai lhes mostrar que eles não são obsoletos. Que os pilotos vieram para ficar." Com um clichê como esse, ele contará mais uma vez com uma generosa cooperação da Marinha.

O produtor, entretanto, não está percebendo um filão mais original. Em vez de aviões não tripulados controlados por terroristas, os drones poderiam ser um exército de pássaros irados reunido por nossos soberanos dos computadores, Google, Facebook e Amazon. Toda vez que um dos gigantes de tecnologia revela que está se aventurando no negócio de drones, o motivo apresentado é tão somente um negócio inteligente, uma expansão benigna.

A Amazon poderá largar pacotes diretamente no seu gramado ou mesmo sobre a sua cabeça. Com frotas de drones a jato movidos por energia solar, Google e Facebook poderiam expandir suas bases de consumidores oferecendo acesso online às áreas pobres e remotas do mundo que não dispõem de linha telefônica ou torre de telefonia celular.

Na terça-feira, o jornal The Wall Street Journal publicou um artigo sobre a vitória do Google sobre o Facebook na disputa para comprar uma empresa iniciante do Novo México chamada Titan, que faz drones movidos a energia solar. Em resposta, o Facebook comprou uma companhia aeroespacial de origem britânica da mesma área. Um porta-voz do Google afirmou que esses "satélites atmosféricos" poderiam "ajudar a resolver outros problemas, aliviando situações de catástrofes e danos ambientais, como o desflorestamento".

Dadas as quebras de privacidade de Google e Facebook e seu conluio com a espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA), podemos ser perdoados por manter algum ceticismo sobre o que ocorrerá quando os oniscientes mastodontes da tecnologia adquirem as máquinas de matança extrajudicial. "Zuckerberg promete que o Facebook vai derrubar drones do Google", proclamou Andy Borowitz na revista The New Yorker.

Será que podemos realmente confiar no Google, que roubou milhões de livros de todo o mundo e cujos veículos de Street View surrupiaram secretamente dados de todo o mundo, agora com drones? Patrick Egan, um especialista em drones que tem um site sobre o tema diz que já estamos no futuro kubrickiano. "Drones são legais em muitos países da Europa", afirma. Ele garante que há mais de 14 mil operadoras de drones autorizadas no Japão.

Portanto, em breve teremos pescadores no gelo do Estado de Minnesota recebendo um pedido de cerveja entregue por um drone. Meu amigo Jim Gleick, autor de The Information que está trabalhando num livro sobre viagem no tempo, é desconfiado como eu da empresa cujo lema não oficial é "Don't be evil" (Não seja mau). "Nós aprendemos que as melhores pessoas com as melhores intenções podem fazer o mal", ele diz. "Por mais sinceros e idealistas que sejam, eles estão concentrando uma quantidade de poder enorme. Uma única companhia gigantesca, que só presta contas a seus administradores, não pode afirmar que tem os interesses mundiais no coração. Em última instância, o que o Google faz é para o Google." Ele afirma que adquiriu um termostato Nest, que conecta a temperatura da casa à internet e aí o Google comprou a Nest. "Agora, o Google sabe não só o que estou lendo", diz. "Sabe também se estou tremendo de frio enquanto leio."

Antes mesmo de algum cair do céu e matar alguém ou bater num edifício, os drones das companhias de tecnologia significarão, diz Gleick, que "estamos vivendo num romance distópico, com um olho continuamente no céu acompanhando tudo que se passa embaixo". E especula: "Será que os drones do Google estarão observando enquanto drones da Amazon entregam meus pacotes? Como distinguiremos os drones com câmeras dos drones com câmeras e armas? A Constituição americana diz que as pessoas têm o direito de portar armas. E a Suprema Corte diz que as corporações são pessoas. Faça as contas." Esqueçam Ases Indomáveis 2. Isso soa mais como Negócio Arriscado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.